domingo, 9 de dezembro de 2012

Morte à palhaçada

Guterres e Barroso têm algo em comum: ambos fugiram da responsabilidade governativa. Têm também algo que os distingue e que abona bem mais em favor do primeiro do que do segundo. Enquanto que Guterres assume a sua quota-parte de responsabilidade no estado a que o país chegou, revelando humildade, Barroso afirma que nada tem a ver com tal situação, manifestando arrogância, provavelmente convencido que todos os portugueses são de memória curta. Aliás, o primeiro que deveria assumir responsabilidades nesse campo seria exactamente Cavaco Silva, pelo seu desempenho enquanto primeiro-ministro. Mas como ele, “nunca erro e raramente me egano”…


Barroso, que, como todos já percebemos, não pesa nada na Europa, atreve-se a opinar que espera que Portugal não reclame o princípio de igualdade de tratamento feito à Grécia. Grande patriota e enorme visão…pensará ele.

Portugal não pretende - por enquanto, mas por este andar não sei se chegará lá – que lhe perdoem dívida. Deve querer, isso sim, que lhe apliquem os mesmos juros e lhe dêem mais tempo, que poderá nem ser, necessariamente, o mesmo que dão à Grécia. Isso sim, é ajudar Portugal e é contribuir para que, efectivamente, nós não venhamos a sentir necessidade de ter de pedir perdão de dívida. Antes que isso possa a vir a acontecer, seria bom que nos preveníssemos.

Barroso e os nossos governantes são umas marionetas nas mãos da senhora Merckel e companhia. Se, pelo menos fossem coerentes, não dissessem hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, ainda poderíamos achar o seu discurso mais ou menos aceitável. É mais sensato ser “cassete” do que “cata-vento”.

Vivam os palhaços autênticos, os que nos fazem sorrir, mesmo que o seu coração esteja de luto, morte à palhaçada que nos proporcionam governantes e acólitos.



sábado, 1 de dezembro de 2012

Haja bom-senso

Desde que tenho verdadeira noção dos meus actos, sempre entendi que as regras, as leis, são para cumprir. E procuro fazê-lo tanto quanto é possível. Há, todavia, uma coisa que a Instituição Escola não me ensinou, mas aprendi na universidade da vida, a quem muito devo, que há alturas em que é necessário que o bom- senso se sobreponha às regras. Confesso que, por diversas vezes, consciente de alguns riscos que corria, não hesitei em fazer aquilo que no momento se impunha, privilegiando aquilo que para mim era o bom-senso, ignorando aquilo que a lei estipulava. Felizmente, nunca em benefício próprio, mas muitas pessoas beneficiaram de tais procedimentos.


De vários, em que fui protagonista, vou contar, de forma sucinta, apenas dois. Nos meados da década de setenta, era Presidente da Casa do Povo de Nespereira. No Distrito de Viseu, por deliberação dos responsáveis distritais, não se pagavam pensões de velhice a mulheres casadas. Em Nespereira pagavam, porque eu não compreendia como é que uma mulher, pelo simples facto de ser casada, não haveria de receber pensão. Devo dizer que nenhuma mulher da minha esfera familiar foi beneficiada com isso. Apesar de muitas ameaças, inclusive de vir a repor o dinheiro que lhes era entregue, com toda a justiça, as mulheres casadas de Nespereira sempre receberam, até que um dia se iluminaram as cabecinhas dos senhores do distrito e um pouco acabrunhados, deram-me razão e todas as mulheres casadas do distrito com direito à respectiva pensão, - a que as de Nespereira sempre tinham recebido - passaram a recebê-la.

O segundo passou-se no grande incêndio de Tabuaço, onde morreram alguns bombeiros. Eu era Inspector Regional Adjunto de Bombeiros do Norte e estava, de madrugada a coordenar as operações no quartel, onde se encontravam estacionadas todas as viaturas dos bombeiros locais, pois eles encontravam-se em estado de choque. De repente cai a informação que há uma vacaria que dentro de poucos minutos arderia se não fosse enviada uma viatura pesada de combate a incêndios. Tinha ali a viatura desejada no quartel, mas nenhum dos bombeiros que me acompanhavam conseguia conduzi-la. Era preciso agir rapidamente. Encontrei à porta do quartel um motorista de uma empresa de transporte de passageiros da terra. Disse-lhe o que era preciso. Ele e alguns bombeiros para trabalharem com a bomba e mangueiras partiram. E não deixaram que ardesse um milímetro das instalações nem morresse uma vaca. Infringi a lei? Infringi. Ainda hoje me sinto feliz por isso. Talvez o “crime” ainda não tenha prescrito. Se alguém me quiser condenar, que o faça, mas eu vou continuar feliz.

Atrevo-me, mesmo, a afirmar, e não terei dificuldades em comprová-lo, que, em muitos incêndios florestais, muito tem sido consumido por excesso de rigor no cumprimento do que está legislado, ignorando, pura e simplesmente, o que o bom-senso imporia que se fizesse no momento.

Bom, mas isto vem a propósito de situações, que eu acho de todo intoleráveis, que se vêm verificando nos transportes de emergência com ambulâncias do INEM e bombeiros, evitando transportar um acompanhante, mesmo que a vítima seja um bebé ou uma pessoa sem autonomia, sem falar, etc. Deixar um ou outro abandonado na Urgência de um Hospital, no pressuposto que um familiar vai atrás de carro é uma manifesta demonstração de não conhecer o país real, em que há inúmeros familiares que não têm carro, nem amigos ou vizinhos com carro, não têm táxi ou nem dinheiro para ele. Imaginem o estado de aflição em que fica o familiar que fica em casa! Imaginem o bebé que se vê no meio de um ambiente hospitalar sem uma cara conhecida! Cumpram-se as leis, mas sem palas que nos coarctem de ver a verdadeira realidade em que vivemos, tendo sempre em mente que, frequentemente, é mais assisado usar o bom-senso do que cumprir a lei, que não poucas vezes é cega.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Pastor cuida das suas ovelhas

Já conhecia a Cartilha Maternal de João de Deus, a obra do poeta e pedagogo que servia de base a um método de leitura das crianças. Agora surge-nos a Cartilha Pastoral de Passos Coelho, que, não tendo a ver com nenhum método de leitura, pretende ensinar as suas ovelhas a responderem aos jornalistas. O Pastor Coelho não quer nenhuma das peças do seu rebanho tresmalhadas. Quase me ia atrever a dizer que Passos Coelho não admite que nenhuma das suas ovelhas diga o que pensa, mas que seja apenas a voz do pastor, esquecendo-me que ovelha não pensa. E o pastor, quando pensa, sai asneira e da grossa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Décadas de atraso

Numa freguesia do concelho de Faro, com décadas de atraso, hoje estralejam foguetes porque a àgua chega às torneiras das casas e o saneamento básico torna-se uma realidade. E em minha casa?! E na casa dos meus vizinhos?! E nas casas dos meus conterrâneos desta freguesia, com estatuto de vila, de Nespereira, Cinfães?! Numa terra em que, em muitos dias, não se pode estar junto a um bloco de apartamentos e ainda um café ejá teve um balcão de um banco; numa terra em que não se pode estar junto a outro bloco de apartamentos e lojas comerciais, que as fossas sépticas transbordam, deixando no chão os efluentes que as pessoas pisam e no ar o inevitável e consequente cheiro nauseabundo;numa terra em que uma escola e uma instituição de solidariedade social não podem funcionar por falta do dito saneamento básico; numa terra assim, pese embora algumas obras que se fizeram - uma delas mais valia ter deixado tudo como estava - que seria injusto não valorizar, não se pode esperar que desenvolva mais e está décadas atrasada.


É hipocrisia, é bairrismo saloio, é demagogia, dizer que a freguesia está óptima, é maravilhosa. È mentira. Bem gostava que não fosse.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

BURROS

O burro, animal irracional, “burro-de-carga” é um animal de ar meigo, humilde, parecendo consciente da sua condição. O “homem-burro” pode também ser isso tudo e despertar até simpatia se for dotado da humildade do dito animal e for consciente da sua condição. Todavia, estraga tudo, quando, num assomo de vaidade, se julga cavalo e não burro e em vez dos naturais zurros, ensaia uns ridículos relinchos.


Há tantos por aí!...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PENSAMENTO

PENSAMENTO




Num determinado período desta última noite, em que Morfeu me deixou cair de seus braços – convenhamos que nesta fase da vida já acontece frequentemente – e fiquei, por ali, estendido no leito, a pensar na “porca” de vida que os políticos me arranjaram e a milhões de portugueses, alguns bem pior do que eu. Na catadupa de pensamentos, repentinamente surge-me este: É bem provável que tão breve, infelizmente, não tenhamos solução, mas temos que pensar, senão no curto, pelo menos no médio e longo prazo, para protegermos os nossos filhos e netos. Com isto na mente, lembrei-me que, dado o entusiasmo que o governo incita à emigração, deveria criar um programa especial de incentivo à emigração de todas as prostitutas para que tivéssemos alguma garantia de que não seriam os seus filhos que nos viriam a governar e a ocupar todos os altos cargos políticos e centros de decisão.

Bom, esta não me ocorreu, nem a aceitaria, mas a uma corja de políticos que ao respeito pelos direitos humanos dá tratos de polé, não quisessem continuar a ser eles os “donos do mundo”, não lhes repugnaria mandá-las castrar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ena, tantos...

O ministro Macedo (MAI) ufana-se de que não há memória de haver um incêndio, em Portugal, combatido por tantos operacionais, como foi o do Algarve. Com muitos mais anos e uma ligação muito mais forte à problemática dos incêndios florestais, concordo plenamente. Mas há a memória, em mim e muitos outros que estão ou passaram pelas fileiras dos BOMBEIROS, e não tenho qualquer dúvida na afirmação, que...já foram combatidos maiores incêndios, em circunstâncias bem mais difíceis, com muito menos operacionais, muito menos meios, mas muito mais eficácia e, consequentemente, muito menos destruição, muito menos prejuizos.


Esta falta de eficácia tem vindo a verificar-se (será mera coincidência?!) depois que quiseram subalternizar a estrutura BOMBEIROS, dando protagonismo à Protecção Civil. Muitos se recordam, e, provavelmente, eu, por motivos conhecidos, mais que quaisquer outros, da exibição de protagonismo da Protecção Civil e outros) nas operações na Tragédia de Entre-os-Rios. Uns exibiam-se, os BOMBEIROS trabalhavam. Infelizmente, ninguém aprendeu nada. Nem o actual presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) que por lá andou em funções "policiais".

O que é necessário é que os operacionais e meios estejam no local certo, à hora certa e que cada qual, sobretudo quem comanda e coordena, para além da missão que deve ter bem definida, seja capaz de, no momento exacto, sem hesitações, ainda que contrariando regras ou normas, mas usando de bom-senso, tomar as decisões adequadas que respondam aos incidentes que frequentemente surpreendem num incêndio florestal.

Em muitos casos, muitas pessoas e muitos meios são mais motivo de estorvo do que de ajuda.

Cada qual que tire as ilações que quiser ou puder.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CHOCADOS

Andam muito chocados, alguns ministros e outras figuras do PSD – e também do CDS – com as palavras de D. Januário Torgal Ferreira. Curioso que já Salazar e os seus prosélitos se chocaram com as palavras certas de D. António Ferreira Gomes, de quem D. Januário foi discípulo, a ponto de o enviarem para o exílio. Ainda não estamos exactamente no ponto de estes fazerem o mesmo, senão não hesitariam em seguir o mesmo caminho.


Marques Guedes até chama “insultos” às acusações do Bispo das Forças Armadas. Mas, desde quando é que dizer, com verdade, o que se pensa, é insulto?! Bem me parecia que este regime governado e apoiado, salvo raras excepções, por saudosistas do 24 de Abril, embora poucos o assumam por hipocrisia ou interesses eleitorais, já só é um arremedo de democracia.

Seria estranho, se não fossem minimamente conhecidos, que se preocupem com o que o Bispo recebe – que não foi ele que decretou – e não se lhes conheça uma palavra sobre o “bando” de “boys” incompetentes e desnecessários que metem na “gamela” do poder a auferir salários chorudos e…abonos suplementares. Isto para não falar da corja de ladrões, burlões, corruptos e até alegados assassinos que integraram ou integram as suas fileiras, alguns em lugares de destaque.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cantai lavradores, cantai...

Cantai lavradores, cantai…


Folgai lavradores, folgai…que, com o apoio que o governo, pela voz do “cara-de-fome” do ministro Mota Soares, que sempre e só aparece quando julga que tem – mas não tem - uma boa notícia para dar, anunciou, ao melhor estilo da propaganda salazarista-marcelista, a vossa vida há-de melhorar muito! Ora vejam lá: Vão ser disponibilizados 31 milhões de euros para apoiar 29 000 trabalhadores agrícolas e 10 000 produtores. Segundo a matemática do meu tempo e, estatisticamente, significa que dá cerca de 795 Euros por pessoa. Uma fortuna, realmente. Mas há mais. È que dos 31 milhões, 25 milhões serão recuperados pelo governo em 2013, os que estão destinados aos trabalhadores. Os outros 6 milhões serão para os produtores e respectivas esposas.

Motivos mais do que suficientes para tanta propaganda e para que os nossos agricultores fiquem felizes. Em 2013, haja seca, geada negra ou tempestade, há que devolver o dinheirinho. Haja paciência!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

As bacoradas de Passos Coelho

Passos Coelho afirmou: “o povo português tem sido extremamente paciente na forma como enfrentou – enfrentou? Já não enfrenta?! – as dificuldades, incluindo o desemprego”.


Decididamente, Passos Coelho não conhece o povo do seu país, não imagina quanta impaciência, quanta dor, quanto sofrimento se acolhem em milhares e milhares de famílias portuguesas ou é um hipócrita sem vergonha. Talvez as duas coisas. O que os portugueses são é demasiado pacíficos. Até ver.

Para não falar agora noutros “crimes”, questionemo-nos apenas como é que os portugueses a quem sacaram o subsídio de férias e o 13.º mês se sentem quando sabem que há uma corja que vive à sombra protectora dos ministros, à custa do erário público, muitos sem quaisquer méritos reconhecidos, e recebem dois meses de abono suplementar, que é como quem diz subsídios de férias e de Natal? Muita transparência!

Compreensível o choque que sofreu D. Januário Torgal Ferreira, o bispo das Forças Armadas e assertiva a sua revolta expressa na afirmação de que as palavras de Passos Coelho configuram um agradecimento a um povo “tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico”.

Pobres portugueses que têm ao seu leme, gente – gente?! – que os trata assim!!

sábado, 26 de maio de 2012

Pobres portugueses

Um povo – o português – que já foi berço de bravos militares, indómitos guerreiros, destemidos navegantes, descobridores de mundos, de sábios e patriotas políticos, daqueles de “antes quebrar que torcer”, admira como é tão tolerante para com gente que cedo começou na política, mas nela só aprendeu o que de pior ela tem: a arte de se governar – e aos amigos – em vez da arte de governar, a arte de manipular, de mentir, de prometer o que sabe que não vai cumprir. Gente que nada sabe da vida real, das pessoas que estão fora do seu círculo e que são a grande maioria. Gente que só come e bebe do bom e do melhor, - só porco do preto, lebre, vinhos de excelência do Douro ou Alentejo, whiskies de 20 anos, não repetir um prato em menos de duas semanas, não é, senhores deputados - enquanto outros já começam a comer metade de uma sardinha com um naco de broa ou nem isso. Gente que “rouba” os subsídios de férias e de natal aos funcionários públicos e pensionistas – não a todos - mas dá aos amigos, alguns incompetentes mas leais, “abono suplementar”, como se todos nós fôssemos “burros” e não soubéssemos que isso corresponde exactamente aos referidos subsídios. Gente sem espinha dorsal, nojentamente subserviente perante os poderosos políticos e financeiros, mas estupidamente arrogante perante os mais fracos.


Surpreendo-me, de facto, como é que com tantas pessoas na miséria, tantas outras a caminho, a passos largos, por culpa de um governo míope, que herdeiro, embora, de uma situação difícil, não é capaz de enxergar que com as políticas que teimosamente segue em obediência a uma troika sem qualquer espécie de sensibilidade e uma senhora que governa um país que vive à custa dos juros que a nós e outros desgraçados cobra, pagando-os, quando disso tem necessidade, a preços infinitamente mais baixos, não se faz algo de verdadeiramente patriótico para pôr essa escumalha que nos governa no sítio adequado: olho da rua.

Há muitos anos atrás, dois docentes universitários andavam de relações cortadas, muito tensas Um dia, passeando a pé, cruzaram-se no caminho. Um deles, puxando bem lá das profundezas da garganta, lançou para o chão um lodoso escarro e disse para o seu antagonista: “considere-se escarrado na cara”.

O inimigo não se fez esperar, puxou com força das entranhas e soltou um valente e bem sonoro peido, afirmando: “considere-se morto a tiro”.

Recordada esta história, apetece-me sugerir aos portugueses que soltem uns enormes peidos, destinados a Passos Coelho, sugerindo-lhe que se considere morto a tiro. Considerado morto, a demissão seria o caminho e um grande alívio para os portugueses que sofrem e para aqueles que se não deixam encarneirar.



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Nespereira - a história do nosso fitebol (1950-2012)

Li com alguma sofreguidão o livro com o título em epígrafe, acabado de publicar pelo meu “inquieto” ex-companheiro da velha carteira da primária, ex-companheiro das lides teatrais escolares, em que eu era sempre o menino bem comportado e ele o mal –quem diria? –, ex-cúmplice em alguns actos “heróicos”, pró-românticos “con unas chicas gallegas”, campeão de bem jogar a bola…na estrada e meu amigo. Alves Pinto ou, como ele gosta de dizer: Tino da ti Maria Zé do Larantino.


Antes de qualquer outro comentário, quero agradecer-lhe por me avivar na memória coisas do meu tempo de criança, que é o mesmo dele, algumas que se me tinham varrido completamente da memória, até porque saí daqui com a terceira classe para o Colégio de Ermesinde, mas que, ao lê-las, me surgiram muito nítidas.

É um livro interessante que vale a pena guardar, porque tem ali estampado muita da história do futebol em Nespereira e dos seus protagonistas. Poderia dizer mais, menos, diferente? Claro que poderia. Alves Pinto, ele próprio o reconhece. Aquela é a sua história, com a sua forma de escrever, com a sua análise, àquilo que de facto é de analisar, porque a maior parte do livro é narrativa, como se esperava que fosse. Por isso, eu que me prezo de nunca temer de usar as palavras que julgo apropriadas, endereço ao meu amigo os parabéns pelo trabalho extenuante, pelo seu contributo para o enriquecimento do património bibliográfico pessoal e nespereirense. Para além de tudo o que mais se possa dizer, o livro poderá ser um trampolim, uma grande ajuda para qualquer outro que queira explorar mais o tema, sobretudo sob o aspecto analítico, desde que o faça com paixão, com verdade, sem facciosismos, sem fanatismos. Nespereira deve-lhe mais esse contributo.

Deixe-me apenas deixar aqui uma explicação, referente a uma das várias menções à minha pessoa. Refiro-me ao facto do excelente jogador que foi Perdigão, campeão pelo Futebol Clube do Porto, cunhado do igualmente excelente Osvaldo Silva, que também pisou a “Portelinha”, ter afirmado no meu jogo de estreia pelo Nespereira, com 15 anos, que eu era o melhor jogador do referido Nespereira. Não se pode dizer que eu era um jogador muito talentoso, simplesmente tinha escola, o que faz muita diferença. Fazendo parte da equipa do Colégio que frequentava, tinha treinador, que à época era o grande mestre Artur Baeta, que criou autênticos prodígios no Futebol Clube do Porto. Para além disso tínhamos ginástica muito a sério em que treinávamos muito a corrida, o sprint, o salto. Posso dizer que, relativamente ao salto, não conheci ninguém que se elevasse mais do que eu para cabecear uma bola. Ganhei nas alturas, a vários jogadores bem mais altos do que eu. Para além do poder de elevação era o tempo de salto que era meticulosamente trabalhado. Em sprints de 20 metros dificilmente perdia. Quanto ao talento havia por aí gente bem mais talentosa, mas faltava-lhes algo que é muito importante no futebol: a condição física e o saber posicionarem-se no campo. Aliás foram estes conceitos, entre outros, que, enquanto treinador, procurei incutir e praticar com os jogadores quando disputávamos o INATEL que nos proporcionou tantas tardes de alegria e tanto entusiasmo dos nespereirenses à volta da sua equipa.

Falando em talentos, embora seja suspeito na afirmação, o mais completo jogador que defendeu, pelo menos nesses anos já um pouco longínquos, as cores do Nespereira foi meu irmão Alfredo Galhardo: tinha a escola que eu tive – com o treinador a querer levá-lo para as camadas jovens do F. C. do Porto, que ele não aceitou, pois não queria ficar aprisionado – e driblava muito bem, rematava bem e forte com os dois pés e, apesar da sua baixa estatura, tinha um excelente jogo de cabeça.

Já estou a alongar-me mais do que esperava. Parabéns, Alves Pinto, uma vez mais e “num t’aflijas” que paguei o livro.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

As MÃES da minha vida

O amanhã é uma incerteza para cada um de nós. Sei lá, se amanhã, seja por que motivo for, poderei exprimir o que hoje sinto! Dessa forma e porque as homenagens não devem ser de ontem, de hoje ou amanhã, mas de sempre, não estranhe que publique agora o que foi feito com os sentimentos de hoje, mas que me percorrem diariamente, destinados à data que o povo celebra: dia da MÃE, 1.º domingo de Maio, neste ano, dia 6.










As MÃES da minha vida

2012.05.06





Há uma MÃE, que é minha, que está nos Céus,

com quem falo todos os dias, em oração,

baixinho, que a tenho aqui no coração,

rogando-lhe por mim e todos os meus.



Claro que a lembro, também, neste dia

que Portugal consagra a todas as MÃES,

mas hoje há ainda outras três MÃES

que eu quero celebrar com alegria:



É a doce mulher, MÃE de meus filhos,

são as extremosas MÃES de meus netos,

cada qual suportando seus cadilhos,



sem deixarem de of’recer afectos.

À primeira agradeço os ternos filhos,

às outras, grato pelos lindos netos.





terça-feira, 24 de abril de 2012

Memórias

Vivíamos há 48 anos sob ditadura – eu já a suportava há 31 anos – em que, tão reles como o próprio ditador – diga-se, em abono da verdade, que não sacou milhões para seu conforto – era toda uma escória de bufos, beleguins, polícias políticos “carniceiros”, políticos incompetentes, mas subservientes. Era a miséria escondida nos campos onde não chegava a água, a luz, a estrada, o médico, a escola. Era a miséria a inundar “ilhas” e bairros de lata, na maior promiscuidade e espurcícia.


Dia 24 de Abril de 1974. Era uma quarta-feira. Tinha uma mulher linda e um filho lindo com dois anos. Leccionava o 5.º e 6.º anos do ensino complementar na Escola de Vila-Chã, na minha freguesia de Nespereira. Já, há mais de cinco anos, tinha acabado de cumprir mais de três anos de serviço militar obrigatório. Porque desde os primeiros anos da década de sessenta, dava conta do que se passava em Nespereira e referia com algum atrevimento, alguma contundência – para a época, claro – as suas múltiplas carências, nas páginas do jornal “Miradouro” e “Primeiro de Janeiro”, vi muitas peças estupidamente censuradas e fui mesmo ameaçado de ser “posto na rua”, por um inspector escolar.

Não me amedrontei e continuei a escrever no “Comércio do Porto”, apesar de não ter outra fonte de rendimentos que não fossem os salários, meu e de minha mulher. Alguns textos eram transcritos pelo jornal “República”, dirigido pelo grande jornalista e democrata Raul Rego.

A Censura era tão estúpida que a simples publicação de um texto onde se afirmava que um determinado lugar não tinha um fontanário, servia para ser vítima de corte com o lápis azul.

Para fugir à Censura tínhamos o temerário jornal paroquial “Sinos d’Aldeia”, dirigido pelo saudoso e talentoso Padre Alfredo Pimenta, pároco em Tarouquela, no qual eu e vários outros escrevemos textos que traziam os políticos situacionistas cinfanenses em “estado de sítio”. Devo dizer que nunca escrevi um texto que não fosse assinado. Em Nespereira, com o Padre Justino, criámos o também paroquial jornal “Nespereirense”, defensor dos interesses da freguesia, grito de alerta contra as injustiças e elo de ligação entre os residentes e os muitos nespereirenses que tiveram de abandonar o torrão natal em busca de melhores e mais dignas condições de vida.

Por cá, a vida corria entremeada de factos anedóticos. Porque eu e minha mulher éramos críticos acérrimos da actuação da Junta de Freguesia, um dia, como retaliação, esta decidiu cortar a energia eléctrica do pardieiro feito escola onde minha mulher leccionava. Imediatamente, enviei um telegrama – ainda estávamos nesse tempo - ao então Ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, e fomos manifestar-nos com os alunos para a porta do Presidente da Junta, que não ousou sequer chegar à janela. Quando cheguei a Cinfães para dar conta do sucedido ao Presidente da Câmara e informá-lo que não daríamos nem mais um dia de aulas enquanto não ligassem a luz eléctrica, antes que eu dissesse algo, ele, queixando-se que eu não o deixava em paz, informava que já tinha levado um “sermão” do ministro e que a luz já estria a ser reposta, o que de facto, aconteceu.

Numa interpelação educada à Câmara Municipal, mas inconveniente do ponto de vista desta, em reunião pública (?!) feita por mim e pelo saudoso grande colega, amigo e companheiro de luta, Carlos Carneiro, contra as injustiças, o ostracismo, a estagnação, foi o suficiente para sermos ameaçados de chamarem a GNR, o que não veio a acontecer, apesar de não desistirmos de dizer o que queríamos, graças à intervenção apaziguadora de alguns membros do executivo.

Poderia lembrar muitos outros episódios que vivi nesse período negro da nossa história, mas vou referir apenas mais um, para ficarem, sobretudo os mais novos, com uma noção mais exacta de como era viver até 24 de Abril de 1974: era eu Presidente da Casa do Povo de Nespereira, que, entre outras tarefas, tinha a seu cargo recensear e pagar as pensões de invalidez e velhice aos rurais que constituíam, nessa época, a maioria dos nespereirenses. Em determinada altura comecei a ser pressionado, e mesmo ameaçado, pelos Serviços de Segurança Social Distrital de Viseu que não deveria pagar pensões de velhice ou invalidez a mulheres casadas. Todo o resto do distrito já cumpria essa directiva. Insisti que não fazia essa interpretação da lei, que seria extremamente injusta e que continuaria a pagar a menos que eles cortassem o dinheiro. Apesar das ameaças, sempre enviaram as verbas de acordo com as folhas que enviávamos mensalmente. Mais tarde, deram conta do erro e anunciaram numa reunião pública, perante uma minha risada sarcástica, que se passariam a pagar pensões a mulheres casadas. Portanto, durante muitos meses, as mulheres casadas pensionistas de Nespereira foram as únicas do distrito que receberam as pensões a que, com toda a legitimidade, tinham direito.

Estas memórias referem-se ao período que terminou em 24 de Abril de 1974. Neste dia, não sabíamos que a próxima madrugada seria libertadora. Foi-o, de facto, mas hoje, 24 de Abril de 2012, 38, não 48, anos depois, a liberdade e a democracia estão ameaçadas. E a caminharmos para a pobreza de outrora.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

A intervenção dos bombeiros na Escola da Fontinha

Altamente condenável a atitude da Câmara Municipal do Porto de enviar 11 bombeiros do Batalhão, sem farda e de cara tapada, ainda por cima para intervirem no despejo do movimento Es.Col.A, na Escola da Fontinha, numa acção que nada tem a ver com a função que aos bombeiros está consagrada. Nada vi escrito sobre a posição do Comandante do Batalhão. Parece-me, todavia, que os profissionais não teriam saído para a operação sem o seu conhecimento. A menos que surjam alguns esclarecimentos que até agora não se viram, entendo que quer o envolvimento dos bombeiros tenha sido feito com desconhecimento do Comandante – o que abriria aqui uma outra perspectiva de gravidade - ou com o seu anuimento a uma intervenção lesiva da sua imagem, o Comandante só terá uma saída que lhe confira alguma dignidade: demissão. E Rui Rio deveria fazer o mesmo. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vamos todos empunhar um cravo vermelho em 25 de Abril

Só por fanatismo ideológico, cegueira intelectual, falta de atenção e reflexão sobre medidas que vêm sendo tomadas pelos governantes, o seu “modus faciendi”, se pode acreditar que a democracia não está a ser posta em causa. Se não nos mantivermos vigilantes, de atentado em atentado, se não até ao seu derrube, pelo menos até ao seu enfraquecimento, é um passo.
São tantos os actos que põem em causa a democracia e que qualquer pessoa sem segundas ou transviadas intenções facilmente nota, que quase me escusaria de os mencionar, mas deixe-me referir alguns, sem qualquer ordem cronológica ou de importância, que no momento me ocorrem. Que dizer do acto de impedir António Costa, o edil de Lisboa, de entrar na Maternidade Alfredo da Costa (MAC)? Depois de Passos Coelho ter chumbado o PEC IV, porque não se podem pedir mais sacrifícios aos portugueses”, segundo as suas palavras, depois de afirmar que cortar os subsídios de férias e de natal era uma estupidez, sabemos o que aconteceu. Sabemos e sofremos muito com isso. Fomos enganados e espoliados. Mentiras atrás de mentiras, decisões tomadas à socapa, falta de transparência, suspensão de reformas antecipadas, ataque sistemático ao Trabalho e defesa do Capital, são actos que atentam contra a democracia. Quem já, algum dia, impôs tantos sacrifícios aos portugueses?! Ninguém.
Passos Coelho, com todas estas medidas e ao tornar-se lacaio da senhora Merkel e do senhor Sarkozy, de que se ufana, solidários só na sua cabeça, matou a nossa independência. Sem independência não há democracia que resista.
Deixe-me dar uma sugestão: para mostrar que estamos alerta, que nos podem empobrecer, mas não subjugar, vamos todos ser portadores, na mão ou na lapela, de um cravo vermelho, no próximo dia 25 de Abril. A democracia merece e agradece. Os cultivadores de flores e as floristas também.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Desabafos

Desabafos

Passeiam-se por aí certos indivíduos que tudo o que dizem, sobretudo o que fazem, porque do que dizem pouco se aproveita, está em consonância com aquela expressão que os franceses usam “c’est à épater les bourgeois”, que numa tradução livre, bem portuguesa, significa “para dar nas vistas” ou ainda “para inglês ver”. Se repararmos bem, se estivermos atentos, são pessoas que não valem “dez réis de mel coado” e, se alguma coisa têm em demasia, é a execrável petulância, a insaciável ambição, ignorando que são alguns dos tristes fenómenos que apressam a autodestruição do homem. Esses vermes que maculam a sociedade e que, infelizmente, muitos deles, ocupam lugares de maior ou menor relevo e para os quais não têm a menor aptidão, o mínimo perfil, são sempre cheios de si mesmos, exactamente o contrário daqueles que têm valor e são humildes, porque têm a noção de que por muito que saibam, muito lhes falta saber. São os pedantes, alguém que, como afirmou Renard, tem a digestão intelectual difícil.
O simples facto de ocuparem lugares para os quais não têm competência, portanto, não estarem no seu devido lugar, faz com que nada valham. Os homens, como as palavras, se não se põem no seu devido lugar, perdem o valor. Cada qual vale o que vale e diria mesmo que quase todos poderiam ter mais ou menos idêntico valor, se cada um desempenhasse funções para as quais está realmente habilitado. Infelizmente assim não acontece. Sobretudo por questões político-partidárias e compadrios vergonhosos, há milhares de indivíduos investidos em funções para as quais não têm a mínima capacidade de desempenho. Isto conduz a uma outra situação injusta, atentatória da equidade, sugadora do erário público. Refiro-me àqueles que desempenham cargos mais elevados no Estado ou principais autarquias que se socorrem de assessores e mais assessores – normalmente os “amigos do peito” ou os “carneirinhos” - para lhes dizer o que fazer, o que já não era mau de todo se o soubessem fazer, mas o que muitas vezes sucede é que são também uns incompetentes com salários chorudos e sem os cortes feitos à generalidade dos funcionários.
Gustavo Flaubert afirmou o seguinte: “Se estúpido, egoísta e ter boa saúde, eis as condições ideais para ser feliz. Mas se a primeira vos falta, tudo está perdido”. A acreditar nisso, enquanto o comum dos cidadãos anda por aí triste, deprimido com a guilhotina sobre o pescoço, que um governo sem sensibilidade social cada vez aperta mais, esses indivíduos, porque são estúpidos e egoístas são os principais detentores da felicidade. Ou estúpidos seremos nós que não somos capazes de nos revoltar seriamente e colocar toda essa gentalha sem escrúpulos no seu devido lugar: nos quintos do inferno como diziam os meus avós?
Ser estúpido, incompetente, medíocre, mentiroso, troca-tintas, camaleão, vigarista é o que está a dar.
Tanto como em 1974, Portugal está a precisar de um outro 25 de Abril. Não seja com a força das armas, mas com a força da nossa voz, da voz de todos os que a têm livre e não receiam mordaças nem represálias, com a força da nossa razão. Razão que não queremos que no-la dêem, mas exigimos que não no-la tirem quando a temos. Mostremos que somos dignos dos que tiveram coragem de se erguer a lutar, e de que a nossa história é fértil, embora também tenha tido traidores e acomodados. Conformarmo-nos é o pior serviço que podemos prestar a nós próprios, aos nossos filhos, aos nossos netos, por isso levantemo-nos, enquanto é tempo, porque deitados ou de cócoras somos mais facilmente esmagados.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Desabafos

Está já por demais confessada a minha aversão a dias comemorativos, exceptuando aqueles que nos recordam factos ou pessoas importantes da história pátria ou mesmo da planetária, porque celebram manifestações que deveriam ser de todos os dias e não de celebração anual e ainda porque eles se revestem, relativamente a muitas pessoas, de uma grande percentagem de hipocrisia. Mesmo assim, e porque vivo numa sociedade com as suas tradições, os seus costumes, as suas virtudes, os seus defeitos, da qual não me posso nem devo isolar, ser-me-ia extremamente difícil deixar de envolver em alguns desses dias, como sejam os consagrados à mãe, ao pai, à criança. Com filhos e depois netos a frequentarem estabelecimentos de educação, sobretudo ao nível dos infantários e do primeiro ciclo do básico, seria impossível ficar à margem de tais celebrações, sem provocar danos nos filhos ou netos que poderiam ter consequências muito nefastas. Por isso, muito mais importante do que eu entender que em todos os dias do ano se devem celebrar o pai, a mãe, as crianças, e mesmo que isso aparente alguma desonestidade intelectual da minha parte, folguei com os trabalhos “secretos” a que os meus netos se entregaram para surpreender o pai com o seu presente, no dia em que Portugal destina para os homenagear. O dia de tal celebração varia de país para país. Creio que na Europa apenas Espanha e Itália o celebram no mesmo dia. Bom, acabei, assim, por participar na celebração que ocorreu no início desta semana, quer através do acompanhamento do entusiasmo dos netos, mas também pelo beijo especial de meus filhos.
Ao meu pai, tal como acontece com minha mãe, eu celebro todos os dias com o pensamento virado para a eternidade onde se encontram.
Aceite, porém, que me aproveite desta ocasião para me celebrar a mim próprio, por me ter sido concedido o privilégio de ser pai de dois filhos maravilhosos, um SENHOR e uma SENHORA que, não tenho quaisquer dúvidas, seriam os filhos que qualquer pai gostaria de ter. Incansáveis trabalhadores, sabedores, mas humildes, disciplinadores e disciplinados, respeitadores e respeitados, solidários; excelente marido, ele; excelente esposa, ela; ele já carinhoso pai, ela extremosa mãe, contribuindo assim para eu me sentir ainda mais feliz, porque me deram cinco netos - dois dele, três dela - lindos, inteligentes, saudáveis, que, muito provavelmente, vão ter um enorme orgulho nos pais.
Hoje, amanhã e sempre, assim espero, há-de ser sempre o dia deste pai que sou eu, pela felicidade que me proporcionam os dois filhos e mais dois seres encantadores, simpáticos, que funcionam como tal: a minha nora e o meu genro.
Todos os dias os meus filhos me têm dado motivos para celebrar a alegria de ser pai. Poderia desejar melhor celebração?! Obviamente que não. Que adiantaria receber prendas e carinhos no dia 19 de Março, se os meus filhos fossem mal formados, me ignorassem o resto do ano, me considerassem um fardo? Não deixaria, mesmo com todos os mimos, de ser um dia de profunda tristeza, provavelmente de maior tristeza ainda.
Sejamos, cada um de nós, um bom pai em cada dia do ano.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Desabafos

Precisava que alguém me explicasse, assim de uma forma como se eu fosse muito “burro” – se calhar sou – algumas coisas sobre o comportamento dos nossos políticos com mais responsabilidades, mas no meu entender, muito irresponsáveis.
Porque é que temos de suportar um Presidente da República com discursos de baixo nível em termos de conteúdo, inoportunos, onde sobressai a covardia, a arrogância, o rancor, o ódio?! Será que os portugueses merecem realmente estar a ser triturados por governantes insensíveis, injustos, discriminadores e, simultaneamente, terem o pior Chefe de Estado da democracia?! Cavaco Silva – estará a ficar senil? – é um petulante responsável pelas primeiras medidas, enquanto primeiro-ministro, que nos conduziram até esta situação miserável em que nos encontramos. Infelizmente, o pior ainda não terá chegado. Como é que ele, primeiro responsável pelo abandono da agricultura, pela destruição dos barcos de pesca e de várias indústrias, não cora de vergonha ao afirmar, agora, que temos de nos virar para os campos, para o mar? É de uma enorme falta de pudor.
Deixemo-lo a tentar equilibrar os tostões da sua magra reforma. Coitado do homem, é tão perdulário, ou benemérito, se preferir, que até prescindiu do salário de Presidente da República, em troca das “míseras” pensões de reforma. Cavaco não necessita dos críticos para o fragilizarem, ele próprio, constantemente, se auto-fragiliza.
Nem Coelho, nem Relvas, nem a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque me conseguiram fazer perceber porque é que, dizem eles, não há excepções nos cortes salariais, isto é, todos vão sofrê-los, e os funcionários da TAP, da Caixa Geral de Depósitos – outros se seguirão – ficaram todos muito contentes com a decisão de entregar à administração das referidas empresas a decisão de redução no salário ou noutros elementos de remuneração atribuídos através de contratos de empresa. Você acredita que vão receber mesmo menos e estão tão felizes?! Há alguém que me explique?
Parece-me que será legítimo que os dividendos das acções correspondentes a 2011 devem ser pagos a quem for seu detentor em 31 de Dezembro desse ano. Ou então quem as vender terá de ter esse factor em conta no negócio a efectuar, a menos que seja parvo. Muito mais cuidado terá que ter quem gere dinheiro dos contribuintes. Se já me parece mal que o Governo esteja a vender acções apenas a pensar na colheita de divisas no imediato, sabendo que nunca mais irá receber dividendos, muito mais grave é descartar dividendos que são dos contribuintes, deixando-os ir para árabes e chineses, numa altura em que esmaga esses mesmos contribuintes com a mais severa austeridade de que há memória. Alguém me explica a lógica deste Governo?
Quem me explica ainda, como é possível a Lusoponte ter recebido as portagens da Ponte 25 de Abril, em Agosto passado, e receber uns milhões como se de facto os portugueses não as tivessem pago? Vão descontá-los depois?! Pois, o Governo está com tal saúde financeira que até pode dar-se ao luxo de entregar dinheiro adiantado à Lusoponte e perder o crédito, por exemplo, na indústria farmacêutica!
Transparência era uma das principais bandeiras da campanha eleitoral de Passos Coelho e do seu PSD. Passados uns meses, o que menos se vê é transparência, mas muita incompetência, muita arrogância, muita insensibilidade e até atentados à democracia por ministros anedóticos, patéticos.
Passou-se mais um 11 de Março. Porque será que os políticos, tanto de esquerda como de direita, estiveram tão caladinhos?!
Por favor, expliquem-me tudo muito bem explicadinho.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Cristiano Ronaldo versus Lionel Messi

Xavi, o magnífico futebolista do Barcelona e da selecção espanhola afirmou que o seu companheiro de clube, o argentino Lionel Messi não é comparável a Cristiano Ronaldo, porque é único, não há outro como ele. Com o máximo respeito pela opinião de Xavi, eu afirmo que CR7 não é comparável a Messi, porque é único, não há outro como ele. Se o espanhol me pode brindar como sendo possuidor de excesso de nacionalismo, eu poderei acusá-lo de clubismo exagerado.
É evidente que a identificação com uma nação ou com um clube podem influenciar, e certamente influenciam, a nossa opinião. Todavia, eu procuro assentá-la noutros parâmetros. Ambos são, indiscutivelmente, dois excelentes futebolistas. Com características diferentes. Messi faz autênticas maravilhas, ou, se preferir, autênticas diabruras, com a bola nos pés. É, no Barcelona, o seu principal goleador, mas parece-me que só numa equipa com os craques que o clube tem e a jogar da forma que joga é que o argentino atinge o grau de excelência que tem atingido. Messi, numa equipa sem os excelentes companheiros que tem e com outro sistema de jogo, ficaria muito longe do expoente que aqui consegue, talvez nunca conseguisse ser “bota de ouro”. A sua própria baixa estatura lhe é favorável para o futebol que pratica.
Cristiano Ronaldo, não com a magia de Messi, mas ainda com a suficiente “para dar e vender”, ao contrário do que penso sobre Messi, será sempre um excelente jogador em qualquer equipa e em qualquer tipo de futebol. Obviamente, tanto melhor, quanto melhor for a equipa em que esteja integrado. CR7, para além dos seus dribles, é um dos mais rápidos futebolistas com bola nos pés. Remata com muita espontaneidade e com muita força com ambos os pés. Joga excelentemente de cabeça. Marca livres directos, sobretudo a distâncias de 30, 40 metros que são o terror de qualquer guarda-redes. É o tipo de futebolista que se encaixa com êxito em qualquer equipa. Se Cristiano Ronaldo não tem tido o êxito na selecção que todos desejaríamos, é porque o tempo de treino para os atletas se adaptarem uns aos outros é sempre curto. Não é aí, também, que Messi ganha ao nosso craque.
São, de facto, dois excelentes futebolistas, mas eu prefiro CR7 a Lionel Messi.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Desabafos

Sempre fui e espero continuar a ser contra a discriminação sexual. Os lugares devem ser ocupados por homens ou mulheres, não pelo seu género, mas pelas competências que exibam. Os salários também só devem ser distintos, de acordo com as funções e nunca pelo facto de serem homens ou mulheres. Os lugares devem ser ocupados por quem manifestar competência para isso, sem curar de saber se é homem ou mulher. Sem quotas. O estabelecimento de quotas para mulheres é um retrocesso. Num país em que a democracia funcione, onde não exista qualquer espécie de discriminação, onde funcione plenamente a igualdade de direitos e deveres, não são necessárias quotas. Não concordo, pois, que a União Europeia queira obrigar as empresas a terem quotas para mulheres nos Conselhos de Administração. É um atentado à liberdade e não prestigia, não dignifica as mulheres. Corre-se o risco de se dizer ou pensar que algumas mulheres só ocupam determinadas funções, porque a lei a isso obriga.
Sem quotas, sem qualquer legislação que obrigasse ou impedisse, há um quarto de século, enquanto comandante de um corpo de bombeiros, fui dos primeiros a recrutar mulheres. É com atitudes como essa que se promove a mulher.
Bom, de acordo com a minha filosofia, também não sou fã do dia internacional da mulher, que em 8 de Março se comemora. Todavia, tal comemoração, como outras, não traz nenhum mal ao mundo. Parece-me até que se irá comemorar o primeiro dia internacional do homem em 20 de Abril. Enfim, há dias e gostos para tudo.
A mulher-mãe, a mulher-mulher, a mulher-filha, a mulher-neta, a mulher-avó, a mulher expoente mais alto de beleza que o Criador colocou na Terra, eu homenageio todos os dias.
Então, em homenagem à mulher, não pelo dia internacional, mas por todos os seus dias, deixo aqui o relato de uma visão, de alguns anos a esta parte – não muitos – que me extasiou.
Estava de visita a uma pequena aldeia, onde corria um riozinho de águas cristalinas que sussurravam por entre rochedos. Ouviam-se pássaros e chocalhos de cabras. Naquela natureza que me envolvia, tudo parecia virgem. Naquele cenário que me extasiava, de repente, deparo-me com uma mulher de sonho: uma jovem conduzindo um burrico, carregado de farinha. Uma cinta bem marcada pelas fitas de um avental; uns seios altaneiros, bem levantados, que se adivinhavam duros, certamente protegidos por espartilho dos antigos, que os não deixam (aos ditos seios) a dar a dar, como agora acontece àquelas que não querem ou não têm dinheiro para silicone, fazendo-me lembrar o pudim flan; umas faces lisas, cuja maquilhagem era o pó da farinha milha; uns lábios grossos, da cor da romã, sem um sulco; uns olhos cor de avelã, protegidos por longos cílios; um cabelo ondulado, negro como o carvão, salpicado aqui e ali de farinha, solto, livre, sobre as costas; umas pernas tipo feitas ao torno; umas ancas reboliças. A garota era uma flor ambulante, era um monumento erigido à beleza. Por instantes fiquei apático; noutro instante cometi adultério em pensamento. Imaginei como poderia aplicar naquele pedaço de céu a minha ternura dos sessenta (há quanto tempo lá foi a dos quarenta!) e essa ternura ser compensada pela doçura dos dezoito.
Por alguns momentos, na minha mente cruzaram-se e entrecruzaram-se imagens e mais imagens e, feito anjo, arrependi-me do pecado, pedi perdão, em pensamento, à minha mulher que nem sonhava o que se passava, e fui-me. Fui-me, mas a pensar nestas belezas campestres, já tão raras, mas que ainda vamos encontrando pelos caminhos e veredas das nossas aldeias mais recônditas, que, ao contrário de muitas sofisticadas citadinas, acordam, de manhã cedo com a mesma cara linda com que se deitaram e que nos fazem cometer estes pecadilhos.
Diziam os latinos que não se deseja aquilo que não se conhece. Ao conhecermos estas autênticas divindades, estes hinos à beleza, ficamos abrasados de desejos.
Deus foi muito generoso criando esses seres tão perfeitos: as mulheres.
Sonhe, sonhe, meu amigo, porque só sonha quem vive. E se sonhar com belas moleirinhas, não se incomode, que Deus é tão misericordioso como omnipotente e por isso perdoa e a sua cara-metade só o saberá se você lhe disser. Convença-se sem nenhuma espécie de frustração, que se não morrer jovem, chegará, você também, a uma altura da vida em que há coisas que só mesmo a sonhar podem acontecer. Pelo menos que sejam bons sonhos e não pesadelos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Desabafos

Perder a credibilidade não é, seguramente, pretender renegociar as condições de um empréstimo. Isso, fazem as empresas e as famílias sérias que têm vontade de cumprir os seus compromissos. Renegociar com a troika não significa perder a credibilidade, mas tão só evitar “triturar” os portugueses, assim do pé para a mão. Perde a credibilidade o governo que assina protocolos para pagar as dívidas a fornecedores - veja-se o caso da Roche – e não cumpre. Renegociará agora. Menos bonito do que se tivesse renegociado antes que lhe fosse cortado o crédito.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Desabafos

Se reflicto sobre os problemas do mundo, sobretudo os que têm a ver com o nosso país, que influencia e é influenciado pelo que se passa nos outros, significa que penso politicamente. Se assim é, quer dizer que o que digo e o que escrevo tem, quase sempre, uma forte matriz política. Ao contrário daqueles que, pretendendo ter um lugar de maior ou menor preponderância política, ficam prisioneiros da doutrina de um qualquer partido ou das ideias daqueles que, tendo lugares de destaque no tal partido, lhes podem servir de “muleta”, eu digo sempre o que penso, sem curar de saber se isso corresponde ao pensamento do partido A, B ou C. Aos chamados políticos, falta-lhes a liberdade de dizer o que pensam, obrigando-se a exprimir apenas o que interessa em determinado momento, mesmo que seja exactamente o inverso do que terão dito noutra altura.
Por isso vou fazendo as minhas análises, sobre diversas matérias, mesmo aquelas que não domino muito bem, sem receio de as expor publicamente, não por leviandade, por ligeireza, mas porque sou um pensador e porque todos os pensamentos são legítimos, ainda que absolutamente contrários ao pensamento dominante. Aliás, estou certo que é a diversidade de pensamentos que faz evoluir o conhecimento.
Posto isto, aqui estou eu, uma vez mais, a dizer de minha justiça, que é como quem diz, a expor os meus pensamentos, a fazer os meus desabafos.
Ah! Por falar em justiça, ela andou muito na berra estes últimos dias por causa de dois casos mediáticos, num deles com a população a querer fazer justiça na rua, o que é sempre de lamentar, por mais que nos pareça que ela não terá sido feita no lugar próprio, ou seja, nos tribunais.
Tendo ainda a ver com justiça, mas não só, não gostei de ver uma pequena peça no jornal diário que habitualmente compro, referente a sete militares que estão a ser julgados por burla com facturas falsas, que mencionava o nome de um militar, provavelmente de baixa patente, presumo, ocultando o nome dos outros, nomeadamente um major-general e dois coronéis. Por quê não os esconder todos ou mencionar todos? Parece-me que – deixe-me dizer assim, já que estamos a falar de justiça – seria mais justo. Acho que é oportuno citar esta frase muito assertiva, cujo autor desconheço: “Se estiveres à procura de algo que seja justo, lembra-te que apenas o soutien realiza esse objectivo: oprime os grandes, protege os pequenos e levanta os caídos”.
Estamos no início da época quaresmal. É altura de os católicos mais cumpridores ou, se preferir, mais tradicionalistas ou conservadores, se devotarem aos períodos de jejum e abstinência. Bom, cá em Portugal, pelo rumo que as coisas levam, já a maioria dos portugueses sejam eles ateus, agnósticos ou professantes seja lá de que religião for, estão condenados ao jejum e abstinência permanentes.
Não somos seguramente um povo de invertebrados, mas seremos, certamente, de líderes políticos invertebrados. Expõem de tal forma a sua pequenez que qualquer referência a Portugal, do sr. Obama ou líder europeu serve para que fiquem tão felizes como a criança a quem deram o brinquedo desejado, tão felizes como um “gato com um chocalho”, esquecendo-se que a maioria das vezes essas palavras nem têm praticamente significado nenhum ou significam exactamente o mesmo que as palmadinhas que os nossos falsos amigos nos dão nas costas. São, de facto, homúnculos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Desabafos

É bem possível que a mais que badalada crise afecte não só os bolsos dos do costume, mas afecte também as mentes e o comportamento das nossas mais elevadas entidades. Digo isto porque se tem assistido a ditos, actos e gestos que não são muito abonatórios dos seus autores, que, pelas funções que desempenham, bem se justificava outro comportamento. Não sei se é qualquer espécie de nervosismo provocado pelo Entrudo que foi para quase todos, menos os da administração pública – os tais que Passos Coelho acha que têm privilégios especiais e por isso vá de sugá-los até ao tutano - ou se é fruto de um Q.I. abaixo da média.
Foi a pieguice do Presidente da República a lamentar-se que a sua “mísera” reforma não lhe dava para pagar as despesas. Piegas, mas cheio de sorte, porque não faltaram por aí subscrições para o ajudarem. Essa sorte não tenho eu nem você, piegas também, porque o primeiro-ministro no-lo chamou, mas ao invés de nos darem qualquer coisinha, roubam-nos aquilo que legitimamente tínhamos adquirido.
Sem me preocupar com qualquer ordem cronológica dos acontecimentos, vem-me à mente a desistência, em cima da hora, de o Presidente da República visitar a Escola António Arroio. É óbvio que Cavaco Silva não foi vítima de nenhuma diarreia intestinal repentina – mental tem com alguma frequência – nem qualquer outro imprevisto. Ele recuou, porque é um caguinchas, só encara uma manifestação hostil, se lhe aparecer de modo a que não tenha tempo de “ meter o rabo entre as pernas”. E diz-se o provedor do povo. Grande provedor, sim senhor! Ah! Marcelo Rebelo de Sousa não deseja um Presidente da República fragilizado. Concordo, mas que tem feito Cavaco Silva para que isso não aconteça?! Pouco. Está farto de “dar tiros nos pés”.
“Nascer em Portugal” foi o tema do último roteiro patrocinado pelo Chefe de Estado. Os velhos não têm filhos. Não podem e se pudessem, para miséria já basta a sua. Filhos, deveriam tê-los os jovens, mas como, se eles não têm condições de sobrevivência, quanto mais para criar filhos?! Além disso, o Governo quer fazer aos jovens o mesmo que aos pastéis de nata: exportá-los. Só velhos cá e jovens lá fora, quem é que vai parir em Portugal? Antes de se incentivar a nascer neste torrão à beira-mar plantado, é necessário criar condições para nele se poder viver.
“Não somos a Grécia”, uma expressão muito pouco solidária, que Passos Coelho não se cansa de repetir, para justificar aquilo que ele julga ser o sucesso das medidas que vem tomando e que a mim me parece que nos conduzirão a um ponto que um dia destes talvez se oiça por aí num outro país europeu “Não somos Portugal”.
Quem também não quis ficar atrás de alguns de seus colegas de governação, nas patacoadas, foi o Ministro da Defesa, Aguiar Branco. Além da imbecilidade como se referiu aos militares, será que ele entende que toda a gente tem possibilidade de estar na profissão da sua vocação ou está na que se proporciona, quando proporciona, o que na actualidade é uma sorte? Ele próprio se deveria questionar se tem vocação para ser ministro. Se for intelectualmente honesto talvez viesse a reconhecer que está no lugar errado.
Como por cá se diz: valha-nos Deus.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Desabafos

Enquanto tiver forças e dispuser de meios, como por ora acontece, não deixarei de defender publicamente as minhas convicções, de aplaudir o que julgar merecedor de aplauso, de reprovar o que julgar merecedor de reprovação, de lutar ao lado dos explorados contra os exploradores. Faço-o na certeza de que não farei nada de extraordinário, mas tão-somente estarei a cumprir o meu dever de cidadão. Não cumpre o seu dever quem se limita a comer, dormir, trabalhar, ainda que seja exemplarmente, deixando as tarefas de lutar por valores, por direitos e deveres, contra a injustiça e a discriminação, para outros, como se nada disso fosse com eles. Mas que também ninguém se conforme que apenas “cumprir o dever” já é motivo suficiente para homenagem. Não, não é. Simplesmente, tão pouca gente cumpre, que o simples facto de alguns o fazerem já parece uma coisa extraordinária. Não é. Deveria ser o normal.
Bom, voltemos à política indígena.
Em boa verdade não posso afirmar que Passos Coelho me desiludiu, porque nunca tive quaisquer ilusões quanto ao seu desempenho como primeiro-ministro. Desiludir, de facto, não desiludiu, mas não esperava que ele se revelasse com tantos tiques ditatoriais, que ele, falando tanto em credibilidade, tivesse por ela tão pouco respeito, ao ponto de já poucos se admirarem que ele amanhã diga exactamente o contrário do que disse hoje. E a arrogância com que ele e os da sua “seita” afirmam coisas do género “vamos dialogar, mas não há alternativa à nossa política”! Como eles são convencidos!
Não sei o que move Passos Coelho contra os funcionários públicos. Se pensar melhor até talvez saiba. Ele quer, a todo o custo, resolver o problema do deficit e da dívida pública. Como não tem arcabouço para resolver o problema de outra forma, como qualquer ditadorzinho, socorre-se do que é extremamente fácil: “assaltar, roubando-os”, aqueles que dependem, em termos salariais, dos dinheiros públicos, isto é os funcionários públicos e os pensionistas – não os de pensões douradas. Qualquer leigo sabe que sugando, e se for preciso suga mais, os trabalhadores do Estado (não todos, apenas os mais frágeis) e os pensionistas, resolve esses problemas. Acredito até que esse problema se resolverá, mas será, aumentando o desemprego, a miséria, tornando Portugal num país terceiro-mundista, a solução? Não haverá, de facto, alternativa a esta política assassina?!
Bom, mas o meu raciocínio ia no sentido de tentar adivinhar o que moveria Passos contra os funcionários públicos. Como ele, sem que lhes sejam conhecidos méritos para tanto, desempenhou, à custa de “padrinhos”, diz-se, lugares de algum relevo em empresas privadas, não sabe o que é a função pública. Trabalhar, não sei se trabalhou. Ao tempo de deputado, não lhe concedo esse estatuto. Os verdadeiros funcionários públicos trabalham mais, muito mais tempo, para menores reformas e nenhuns privilégios.
Dar ou não dar ponte no Carnaval, pessoalmente, não me afecta. Primeiro, porque nunca fui grande fã de tais festejos, segundo porque estando reformado, mais feriado ou menos feriado não me afecta. Mas o que importa é o que acontece à maioria dos portugueses e não a um. Cavaco Silva atreveu-se uma vez a não dar ponte e não repetiu. Nem esse exemplo serviu para Coelho aprender a lição. Bem pode pôr as máscaras que quiser, mas a sua verdadeira cara é de alguém que não tem respeito pelos portugueses nem pelas suas tradições, que vai ajudar a arruinar a economia das regiões, que está a atirar para a miséria milhares e milhares de cidadãos, seus compatriotas.
Aliás, essa história do dia de Carnaval, já de há muito deveria estar instituído, através de legislação, como feriado, porque ele faz parte das mais profundas raízes culturais do nosso povo. E se esse povo espezinhado, em alguns aspectos pior do que no tempo de Oliveira Salazar, precisa de alguma alegria, alguma folia, é agora. Trabalhar, trabalha ele demais nem que seja à procura de emprego ou de arranjar umas côdeas de pão para matar a fome.
Acredito que a maioria dos empresários dêem folga aos seus trabalhadores. Uma vez mais, os funcionários públicos – aqueles que o governo diz que têm mais regalias do que os privados – serão descriminados.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Desabafos

Devo confessar que este governo que nos desgoverna, por tantas e tamanhas maldades, quase impede que o meu pensamento se entretenha com outros temas. Daí que sinta que a actuação do referido governo me retire capacidade de desenvolver o meu raciocínio e me leve mesmo a temer que possa vir a sofrer de um eventual comportamento depressivo. Não seria, de certeza o primeiro a sofrer desse mal, a expensas exclusivas da governação, para além de má, no presente, inspiradora de não confiança no futuro. Por várias razões, uma delas, porque a generalidade dos portugueses nem sequer confia na palavra dos políticos que estão ao leme. Não fora eu saber que ninguém me pagaria, e porque não desejaria que pudesse ser acusado de prejudicar o erário público, exigiria uma indemnização, não só pelos males materiais que me estão a causar, mas sobretudo pelos males espirituais. Para além de estarmos constantemente a ser espoliados, não se aguenta ter de estar sempre a pensar em crise, que cada dia que vem vai ser pior do que o anterior, etc., etc. Bom, mas também iria pedir uma indemnização como?! Através de um requerimento pessoal, directo?! Através de uma acção judicial?! Não, não vale a pena. Em qualquer dos casos iria morrer, antes de obter qualquer resposta.
Sendo assim, tentando contrariar o rumo para que me conduz o pensamento vou tentar outra abordagem.
A vida, em cada momento que vivemos, se os vivermos atentamente, é uma autêntica escola que nos proporciona constantemente novas aprendizagens, nos leva a mudar de opinião, – só os burros é que não mudam – a alterar comportamentos, a ver as pessoas e o mundo de forma diferente, a conhecer melhor os humanos. Tal conhecimento permite-nos observar com mais acerto onde está a hipocrisia ou a franqueza, a gratidão ou a ingratidão, a lealdade ou a deslealdade, a verdade ou a mentira, a justiça ou a injustiça, a bondade ou a maldade, a humildade ou a arrogância, a competência ou a incompetência, a vaidade ou a simplicidade, o mérito ou o demérito, a valentia ou a cobardia, o altruísmo ou o egoísmo. Concluímos, assim, sem qualquer espécie de dificuldade e sem necessidade de uma inteligência acima da média, que vivemos num mundo de tal forma desinteressante, de pernas para o ar, onde sai vitorioso tudo o que é negação daqueles valores que deveriam ser universais e pelos quais, infelizmente, poucos se regem.
Entre muitas outras coisas que os nossos sentidos recolhem e o nosso cérebro descodifica, a minha sensibilidade, a minha inteligência ficam feridas com determinadas homenagens, mais abrilhantadas umas, mais singelas outras, expressas apenas em mais ou menos elaboradas, mais ou menos extensas peças literárias.
Porque me dou conta de tudo isto, porque me repugna a mediocridade em que tantos se encontram situados, mas tudo fazem por aparecerem num qualquer periclitante pedestal, a minha revolta torna-se maior ainda, quando tenho a certeza de que muitas das ditas homenagens não passam de um repugnante exercício de hipocrisia. Hoje, através das redes sociais, apercebemo-nos muito mais facilmente desse fenómeno. Quase todos nós conhecemos pessoas – eu conheço – que, pelas costas, dizem “cobras e lagartos” de algum ou alguns ditos amigos. Pois é só estar atento ao que dizem de frente ou ler algumas referências nas ditas redes sociais. Quem não conhecer até conclui que se trata de pessoas capazes de darem a vida umas pelas outras e todas vestidas de excelsas virtudes. Como é possível existir tanta hipocrisia?! Como é possível, como por cá se diz, “andar meio mundo a enganar outro meio”?!
Amigos?! Mas que amigos?! Aprecio mais aqueles que são capazes de dizer não, que são capazes de discordar e justificar.
Muitos amigos?! Não, o que muitos têm são muitas pessoas conhecidas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Desabafos

Estou preocupadíssimo. Então não é que Cavaco Silva, o Presidente da República que eu não elegi, mas que é também o meu, anda por aí a choramingar que a reforma de cerca de dez mil euros mensais que receberá não chega para as suas despesas e, por isso, terá que recorrer às suas poupanças que conseguiu, com muito sacrifício, presumo eu, fazer durante os seus quarenta e oito anos de casado! Coitado do homem! E como é que eu sobrevivo?! E você?! E você?!
Será que ele joga no casino?! Será que ele tem amantes?!
Bom, se ele estiver mesmo assim tão necessitado, arranja-se aí uma subscriçãozinha para o ajudar entre os seus colegas pensionistas de 300 e 400 euros. Esses, eu tenho a certeza que são solidários.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desabafos

Este é verdadeiramente o Governo da mentira, dos sem-vergonha. Pelo saque que faz às bolsas dos trabalhadores e dos pensionistas, direi que é uma cambada de especialistas em pilhagem. Toma medidas, destrói conquistas dos trabalhadores que nem Oliveira Salazar se atreveria a tanto. É execrável a demagogia com que alguns ministros se vangloriam de feitos que eles julgam importantes, não se cansando de proclamar aos quatro ventos que foi a primeira vez que em Portugal se fez isto ou aquilo. O que eles deviam proclamar bem alto é que é a primeira vez que em Portugal se sacam de uma só vez – não a todos, porque para a indignação ser maior ainda somos confrontados com o facto de uns serem filhos e outros enteados – subsídios de férias e de Natal, que a saúde, os transportes estão cada vez menos acessíveis e muito mais caros, que o desemprego aumenta constantemente, que o trabalhador é cada vez mais explorado, em benefício do grande capital.
Fala muitas vezes, este desgraçado governo, em credibilidade externa. Mas que credibilidade externa? Por causa dos mercados?! Claro. O que a estranja quer é comer-nos a “carne” e, depois de só termos os ossos, ignoram-nos. E a credibilidade interna? A interna só vai ser tida em conta quando se aproximarem eleições.
Julgam que com este acordo altamente lesivo dos trabalhadores, que não vai fazer crescer a economia – como é que ela há-de crescer se as pessoas têm cada vez mais os bolsos vazios? – que conseguirão a paz social que anunciam triunfantemente? Mas que paz social? O facto de João Proença, líder da UGT, ter assinado o acordo, não vai contribuir para a dita paz. Os trabalhadores, muito provavelmente, deixarão até de o respeitar, porque ele os traiu, na medida em que o dito documento só traz penalizações para eles. O seu papel era exclusivamente defender os trabalhadores e pôs-se no lugar de defensor da economia. Para isso estavam lá outros parceiros. No lugar dele, demitia-me, embora me pareça que a assinatura do acordo possa ter um aspecto positivo: Os patrões não terão mais legitimidade para se queixarem que a economia não cresce por falta de legislação adequada. Aqui têm eles legislação à sua medida. E porque ela é, realmente, apenas à sua medida, a guerra vai ser dura. Eu estarei com todas as armas ao meu alcance na frente de combate.
Se com salários mais baixos, mais elevados impostos, mais desemprego, produtos de primeira necessidade mais caros, educação, saúde, transportes com custos mais altos, a economia portuguesa crescer, sugiro que os portugueses se unam em torno do Álvaro e peçam para ele o Prémio Nobel da Economia. Se estivermos vivos.
Outra expressão que este governo muito utiliza, mas não pratica é “transparência”. Se ela existisse não haveria na administração indirecta do Estado, vários ministérios que não divulgam os salários de quem foi reconduzido ou escolhido por este mesmo governo. “Bem prega Frei Tomás…”
Políticos, estadistas de envergadura, dão-se alvíssaras a quem encontrar um. Parece que em Portugal e no mundo. Atentem nesta expressão do candidato republicano às presidenciais dos Estados Unidos, Rick Perry: “Soldados que urinaram em cadáveres no Afeganistão não são criminosos. São miúdos de 18, 19 anos e cometem erros”. E mandam-se miúdos para a guerra? – pergunto eu.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Desabafos

Sempre me chocou a falta de reconhecimento pelo trabalho, pelo mérito daqueles que executam tarefas em prol dos outros, muito mais quando elas são desempenhadas com amor, abnegação, com desapego ao dinheiro e ao descanso, com sacrifício da própria vida, como tantas vezes acontece. Costumo dizer, muitas vezes, que dos sentimentos que mais aprecio, um deles é o da gratidão. Pelo que o País lhes deve, se há quem realmente merece reconhecimento, são os seus bombeiros, na sua grande maioria voluntários, dando cobertura a todo o território e desempenhando, imensas vezes, tarefas que competiriam a outras entidades com gente remunerada para as executar. Mas, à porta de quem os portugueses batem, em situação de qualquer espécie de aflição, é sempre à dos seus bombeiros, porque sabem que lá, ao contrário de outros locais, sempre encontram as portas abertas. Digamos que, como se diz na minha região, os bombeiros são uma espécie de “pião das nicas”. Felizmente, os portugueses têm, na generalidade, pelos seus bombeiros, o maior património humano que Portugal possui, a consideração, o apreço que lhes é devido. Infelizmente, quase nunca acontece o mesmo por parte de instituições e entidades a quem se exige, pelas atribuições que lhes estão confiadas, pelas competências que têm, esse apreço, esse respeito.
Desde há muitos anos que “saio a terreiro”, das mais diversas formas e consoante as oportunidades, em defesa da instituição bombeiros. Infelizmente, sempre encontrei muitas mais razões para lamentar do que para enaltecer a forma como eram tratados. Alguns chegavam mesmo a afirmar que eu tinha propensão para estar sempre do contra. Talvez, mas o que é certo é que mais cedo ou mais tarde, a razão se viria a manifestar do meu lado.
Houve um governante que procurou entender os bombeiros e fazer algo de positivo. Foi ele, Dias Loureiro, bem presente na memória recente dos portugueses por maus motivos. Isso, todavia, não me impede de fazer justiça. Antes dele e após ele, praticamente nada de positivo. Antes pelo contrário.
A primeira e grande machadada na instituição bombeiros deu-a António Costa, actual Presidente da Câmara de Lisboa e, à época, Ministro da Administração Interna. A ele se deve a famigerada, inoportuna e desnecessária criação dos GIPS da GNR. Desde o início não parei de combater tal existência. Fi-lo das mais diversas formas e algumas vezes em locais e perante pessoas que muitos não teriam coragem de fazer. Ainda há relativamente poucos dias me referi a eles, no enquadramento de uma crítica que fazia ao actual ministro Miguel Macedo quando teve a infeliz afirmação de que “corporações de bombeiros em dificuldades financeiras são casos de polícia e tribunais”.
Hoje, diz-se e eu quero acreditar nisso, que Miguel Macedo deu ordens para se extinguirem os GIPS. Tenho que o louvar por isso. Uma vez mais eu tinha razão.
Quanto ao porta-voz da Associação Socioprofissional da Guarda (ASPIG) quero sugerir que não fique tão preocupado com o erário público, porque os materiais e equipamento, se o processo for conduzido correctamente, deve ser entregue às associações de bombeiros. Espero que não fiquem a apodrecer à porta dos quartéis da GNR. Quanto ao dinheiro que foi investido na formação dos militares ela nunca é demais e em qualquer altura pode manifestar-se útil. Já quanto à eficácia, bom, as estatísticas são uma coisa e a realidade é, não poucas vezes, bem diferente. Se eu comer apenas as asas de um frango e um meu amigo comer todo o resto do frango, estatisticamente, foi meio frango para cada um.
Hoje, e por agora, fico-me pelo aplauso à extinção dos GIPS.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Desabafos

Desde há uns anos a esta parte que as associações de bombeiros vêm sofrendo tratos de polé, por parte do poder instituído. Poderia referir aqui uma série de situações que comprovariam isso mesmo, mas, por agora, não me vou alongar. Porque existe uma ligação profunda, quase umbilical, entre mim e a instituição bombeiros, cada maldade que lhe façam, sinto-a como se me dessem uma punhalada. O sofrimento que tal punhalada me proporciona é tão mais atroz, porquanto, cada vez que fazem mal aos bombeiros, estão a complicar a vida das populações que eles servem, sobretudo a dos mais desfavorecidos. E é bom não esquecer que os bombeiros, detidos na sua esmagadora maioria por associações, cobrem todo o território nacional, sabendo-se que na maior parte desse mesmo território, as respectivas populações não têm outro meio de socorro rápido e eficaz que não sejam os seus bombeiros, que normalmente acarinham, respeitam e contribuem para a sua sobrevivência. Contribuição, até essa, posta em causa, dada a imposição de austeridade que está a transformar generosos e solidários contribuintes em necessitados de contribuição.
O resultado das políticas erradas relativamente aos bombeiros, que desempenham tarefas, muitas delas gratuitamente, que competiam aos diversos poderes garantir, é que muitas associações já tiveram de despedir bombeiros assalariados, outras estão com salários em atraso, com dívidas incomportáveis que contraíram para não faltar o socorro a quem dele carece, e que só a generosidade de muitos credores vai permitindo suportar, outras mesmo correm sérios riscos de fechar as portas. Ora isto só pode acontecer, porque autarquias e poder central ainda se não deram conta - ou fingem - dos milhares de milhões de euros que teriam de desembolsar – no fundo nós todos – para manter a cobertura nacional que as associações de bombeiros voluntários oferecem, senão com melhor eficácia, pelo menos com a mesma, se tivessem de socorrer-se exclusivamente de corpos de bombeiros municipais profissionais.
Corre, assim, sérios riscos, a vida, sobretudo a vida, mas também o património dos portugueses. Há milhares de compatriotas nossos que, com as associações de bombeiros impedidas de o fazer porque não lhes pagam devidamente o transporte que fazem com as suas ambulâncias, deixam de ter acesso ao socorro, ou, em última análise, tendo-o, vão contribuir, por incapacidade para pagarem, para o agravamento da situação económica das mesmas associações. Os políticos, e refiro-me apenas a eles porque são eles a quem compete governar e legislar, têm direito a subsídios avantajados para transportes, para alojamento, a várias reformas chorudas, mesmo que com poucos anos de actividade. Para pagar justamente, porque só se pretende pagamento justo, o transporte de doentes, não há dinheiro.
Também não havia dinheiro e continua a não haver para subsidiar justamente as equipas de bombeiros que combatem os incêndios florestais, mas houve dinheiro para criar os GIPS da GNR, retirando esses militares das verdadeiras funções para que foram criados, equipando-os com material que deveria ser entregue às associações de bombeiros e deixando o combate com meios terrestres ou aéreos, entregue aos soldados da paz que têm enorme experiência na matéria. Devo confessar, sem qualquer espécie de facciosismo, que do que vi e ouvi nestes últimos anos, relativamente à actuação dos ditos GIPS, não me agradou nada, mesmo nada, muito embora até lhes tenham tecido louvores públicos que, noutras ocasiões, muito mais merecidos, não foram endereçados aos bombeiros. Fogos nascentes, numa grande parte deles, onde estavam os GIPS?! Tendo o cuidado de navegar, de vez em quando, pelo sítio da Autoridade Nacional de Protecção Civil, poucas vezes encontrei tais grupos referenciados nos elementos de combate, nos inúmeros incêndios que iam deflagrando aqui e ali, no Verão. Aliás, sabe-se que a sua presença, em alguns incêndios florestais, foi mais fonte de conflito do que colaboração.
Confrontado com as dificuldades financeiras das associações de bombeiros, Miguel Macedo, o Ministro da Administração Interna do funesto Governo teve esta tirada: “corporações de bombeiros em dificuldades financeiras são casos de polícia e tribunais”. É natural que haja um ou outro caso, nos bombeiros, que fuja à legalidade. Mas, senhor ministro – nem me apetecia muito chamar-lhe senhor – olhe que casos de polícia e tribunais hão muitos nos políticos, só que esses, com leis feitas à sua medida e dinheiro, adquirido sabe Deus como, acabam quase sempre por “fugir com o rabo à seringa”.
Os bombeiros não querem qualquer espécie de favorecimentos, só exigem que os respeitem e lhes dêem aquilo a que têm direito, para continuarem a cumprir e bem as tarefas de protecção e socorro e até muitas outras que competiriam a outras entidades, mas que, na altura própria, ninguém sabe onde as contactar ou quando e se chegariam.
Ufanamente, o mesmo ministro, apregoa o apoio às polícias. Ainda bem. O dinheiro que nos roubam há-de dar para alguma coisa útil. Mas, pudera, como é que eles não iriam querer ter as polícias bem equipadas, se o mais certo é que nos próximos tempos bem precisem delas para lhes defenderem o costado! Vai ver que o que eles querem é que se os portugueses não desaparecerem com a emigração aconselhada, se não morrerem à fome ou por falta de cuidados de saúde, morram à porrada!
Deixe-me usar aqui a primeira quadra de um soneto de José Régio, escrito em 1969. Ei-lo:
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

1969 tão longínquo e tão próximo.