Por mais que me esforce, tenho uma dificuldade enorme em desligar-me do discurso da traição, da agressão, do assalto aos nossos bolsos por parte de quem tinha obrigação de fazer exactamente o contrário. Com um nível de vida dos mais baixos da Europa, vínhamos, desde há alguns anos a esta parte, esperando – sempre a esperança – uma aproximação aos salários de outros europeus. Com salários a subirem abaixo da inflação ou mesmo a ficarem congelados, nunca lá chegámos, mas o que este governo está a fazer é pôr-nos a milhas deles. Falo novamente nesta matéria, porque num tempo em que se costuma falar de esperança num novo ano, aquela janela de esperança que Passos Coelho afirmou que se abrira, quando conquistara o poder à custa de uma mentira colossal, nem nunca se abrira, antes se fecharam janelas, portas e nem uma simples frincha deixara aberta.
Cada vez mais os políticos deixam de merecer a confiança dos eleitores e, por isso, qualquer dia nem sei se haverá eleitores e se valerá a pena realizar eleições. Se isso acontecer, será por culpa de quem? Obviamente, dos políticos e teremos, infelizmente, o fim da democracia, que acredito, agradaria imenso a muitos que se autoproclamam de democratas e até vingam e bem – ao contrário de muitos seus concidadãos bem mais democratas – à custa dessa mesma democracia, apesar de todos os seus defeitos, o melhor de todos os regimes.
Gosto muito de putos. Putos, crianças. A profissão que abracei levou-me a lidar diariamente, e por mais de três décadas, com putos. Liderei ainda, no futebol, como treinador, impúberes rapazinhos. Agora, inebrio-me com cinco netos. São giros os putos. Eu amo-os. São putos, mas são gente.
Mas há outros putos, os pulhas, os devassos. São esses putos, muitos dos nossos políticos. Eu disse putos, não me referi às mães deles, como muitos outros fazem, que porventura até terão enorme desgosto por terem parido semelhantes crias. Putos, pulhas destes, há-os por aí aos milhares e não apenas nos políticos, infelizmente.
Aos putos, crianças, eu respeito; os outros putos, os pulhas, indignam-me, revoltam-me, provocam-me náuseas.
Dão-se alvíssaras a quem inventar um veneno eficaz, para a sua extinção, já que, ao contrário dos putos crianças que tendem a decrescer, os pulhas tendem a expandir-se.
Eram os meus filhos pequenos e um familiar meu, em minha casa, questionou, referindo-se a eles: - A canalha já chegou?
A minha filha, com dez anos, na altura, que se encontrava num compartimento ao lado, ripostou de imediato e num tom de muito ofendida: - Olha que eu não sou canalha!
Tinha razão. Canalha é outra coisa, é muita gente crescida que anda por aí.
Tu, homem verme, que te julgas gente só porque és grande e às crianças chamas canalha só porque são pequenas, repara que elas se riem de ti e te acham grande…canalha.
Por isso, meu amigo, esperança nos políticos, para um bom ano de 2012, esqueça. Se tiver oportunidade veja o “mérito”, se preferir, o currículo, de alguns deles que ocupam lugares de relevo, mesmo de muito relevo.
Mantenhamos, isso sim, a esperança em cada um de nós, na nossa força, na nossa coragem, na nossa capacidade de sobreviver. Em nós e nos verdadeiros amigos: aqueles que nos olham olhos nos olhos, que nos sabem dizer sim e dizer não, que não dizem nas costas o que não sejam capazes de dizer de frente, que sofrem com as nossas dores, os nossos insucessos, que se emprenham de júbilo com as nossas conquistas, os nossos méritos, as nossas alegrias.
Como disse Benjamin Franklin “quem vive de esperanças - nos políticos, digo eu – corre o risco de morrer de fome”.
Com uma confiança acrescida em cada um de nós e em comunhão com os verdadeiros amigos – não se esqueçam de irradiar a hipocrisia – imbuídos de autêntico espírito solidário, haveremos de sobreviver, ainda que seja com uma mão atrás e outra à frente, mas com dignidade, para podermos contemplar, um dia destes, os nossos algozes derrotados, de cócoras, na base do pedestal de onde atiraram para a miséria muitos dos seus concidadãos.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
domingo, 3 de janeiro de 2010
Manter acesa a esperança
A partir do momento em que atingimos um carro de anos de idade, parece que o tempo voa, como se os anos tivessem apenas a duração de meses, os meses de dias, os dias de horas. Para quem não estiver identificado com esta linguagem tipicamente agrária, devo dizer que um carro de anos, quer dizer quarenta anos. É precisamente a partir dos quarenta anos, ou da entrada nos “entas”, como também se diz, que os aniversários, os Natais, as Páscoas ou quaisquer outras efemérides se sucedem a uma velocidade, que, sendo sempre a mesma, todavia, nos parece estonteante. Quase sem nos darmos conta, temos filhos, que tendo a idade que, no subconsciente, nos parece ter, mas a quem já começam a aparecer as primeiras cãs e já nos deram netos. Sinal de que, afinal, já somos seniores, como agora se diz, ou estamos, apressadamente, a lá chegar. Bom, se de acordo com os rótulos da moda, eu já entrei na terceira idade ou sou sénior, com direito a meio bilhete, benesse de que, por acaso, ainda não usufruí, não obstante já me ressentir de algumas maleitas físicas, mesmo assim, não só física, mas sobretudo mentalmente, não me sinto, de modo nenhum, em estado sénio.
Este arrazoado vem a propósito de termos entrado na segunda década do século XXI, apesar de me parecer que foi ainda há muito pouco tempo. Recordo bem aquela noite de passagem de 1999 para 2000, até porque, pelas funções que desempenhava, tive de me manter toda a noite, desperto e atento, no Centro de Operações que dirigia, uma noite cheia de dúvidas, de incertezas para milhões de pessoas, de enormes receios para muitos outros, que acreditavam, ou, pelo menos, suspeitavam que “a dois mil chegarás, mas de dois mil não passarás”. Não se confirmaram receios, profecias, iniciou-se um novo milénio de forma tranquila. Terminou-se a sua primeira década, com momentos de fortuna para uns, de infortúnio para outros, de sucessos e tragédias, de esperanças e desesperanças.
No início deste terceiro lustro do milénio, “entretidos” com uma grave crise à escala global, mas de que alguns se aproveitam, ao invés de, como é nosso timbre, ficarmos à espera de ver o que é que os outros fazem, nomeadamente aqueles que têm responsabilidades de governação, a qualquer nível, melhor é cada um de nós assumir que deve ser parte da solução e não apenas o problema ou uma parte do problema. Cada um de nós, uns mais, outros menos, através da acção, do comportamento, de uma outra atitude, de um optimismo racional e não um pessimismo doentio, fatalista, pode contribuir para o debelar da crise, para um país mais próspero, mais solidário. É preciso não deixarmos morrer a esperança e fazermos tudo quanto estiver ao nosso alcance para não deixar que a esperança morra, mesmo naqueles mais desafortunados, que quase não têm uma réstia de nada para a fazer sobreviver. É preciso acreditarmos mais em nós próprios, nas nossas capacidades, usá-las; é preciso acreditarmos mais em nós, como povo, que temos uma história que, não obstante alguns fracassos de que soubemos sempre reerguer-nos, construímos êxitos de que poucos povos se podem orgulhar. É preciso acreditarmos que não é invejando, mas congratulando-nos com o sucesso dos outros, que não é fixarmo-nos cegamente nas nossas convicções ou nos nossos interesses, defendê-los sem admitir consensos, beneficiando sempre o interesse particular em prejuízo do geral, que contribuiremos para tempos de melhor justiça, melhor educação, melhor equilíbrio social. É forçoso, é urgente que cada um de nós seja menos egoísta, não deixe desmoronar a esperança, mas, na certeza de que se não fizer nada por isso, ela sucumbirá tão ingloriamente como inglório será o nosso futuro.
Cá por mim, apesar do estatuto sénior, mantenho a esperança, o optimismo, a confiança que sempre me caracterizaram, atributos, graças aos quais foi possível atingir determinados objectivos, uns pessoais, outros colectivos, alguns mesmo em que poucos acreditavam e se comportavam como “Velhos-do-Restelo”. Se a cada um de nós, cidadão comum, para bem de todos, se exige que assim seja, aos políticos de todos os quadrantes, porque nas suas mãos depositamos o nosso futuro, se tem de ser mais exigente ainda. É admissível, é legítimo, é normal que cada partido lute de acordo com as suas convicções – quando as tem, porque às vezes parece que não – mas há momentos, em que, de tão contraditórias que são as opções, tem de haver cedências de parte a parte, em nome do bem comum. A minha grande esperança para 2010 é que isso possa ser uma realidade. Se assim for, para além de podermos ter melhores sonhos, podemos acreditar num futuro melhor. Assim seja.
Este arrazoado vem a propósito de termos entrado na segunda década do século XXI, apesar de me parecer que foi ainda há muito pouco tempo. Recordo bem aquela noite de passagem de 1999 para 2000, até porque, pelas funções que desempenhava, tive de me manter toda a noite, desperto e atento, no Centro de Operações que dirigia, uma noite cheia de dúvidas, de incertezas para milhões de pessoas, de enormes receios para muitos outros, que acreditavam, ou, pelo menos, suspeitavam que “a dois mil chegarás, mas de dois mil não passarás”. Não se confirmaram receios, profecias, iniciou-se um novo milénio de forma tranquila. Terminou-se a sua primeira década, com momentos de fortuna para uns, de infortúnio para outros, de sucessos e tragédias, de esperanças e desesperanças.
No início deste terceiro lustro do milénio, “entretidos” com uma grave crise à escala global, mas de que alguns se aproveitam, ao invés de, como é nosso timbre, ficarmos à espera de ver o que é que os outros fazem, nomeadamente aqueles que têm responsabilidades de governação, a qualquer nível, melhor é cada um de nós assumir que deve ser parte da solução e não apenas o problema ou uma parte do problema. Cada um de nós, uns mais, outros menos, através da acção, do comportamento, de uma outra atitude, de um optimismo racional e não um pessimismo doentio, fatalista, pode contribuir para o debelar da crise, para um país mais próspero, mais solidário. É preciso não deixarmos morrer a esperança e fazermos tudo quanto estiver ao nosso alcance para não deixar que a esperança morra, mesmo naqueles mais desafortunados, que quase não têm uma réstia de nada para a fazer sobreviver. É preciso acreditarmos mais em nós próprios, nas nossas capacidades, usá-las; é preciso acreditarmos mais em nós, como povo, que temos uma história que, não obstante alguns fracassos de que soubemos sempre reerguer-nos, construímos êxitos de que poucos povos se podem orgulhar. É preciso acreditarmos que não é invejando, mas congratulando-nos com o sucesso dos outros, que não é fixarmo-nos cegamente nas nossas convicções ou nos nossos interesses, defendê-los sem admitir consensos, beneficiando sempre o interesse particular em prejuízo do geral, que contribuiremos para tempos de melhor justiça, melhor educação, melhor equilíbrio social. É forçoso, é urgente que cada um de nós seja menos egoísta, não deixe desmoronar a esperança, mas, na certeza de que se não fizer nada por isso, ela sucumbirá tão ingloriamente como inglório será o nosso futuro.
Cá por mim, apesar do estatuto sénior, mantenho a esperança, o optimismo, a confiança que sempre me caracterizaram, atributos, graças aos quais foi possível atingir determinados objectivos, uns pessoais, outros colectivos, alguns mesmo em que poucos acreditavam e se comportavam como “Velhos-do-Restelo”. Se a cada um de nós, cidadão comum, para bem de todos, se exige que assim seja, aos políticos de todos os quadrantes, porque nas suas mãos depositamos o nosso futuro, se tem de ser mais exigente ainda. É admissível, é legítimo, é normal que cada partido lute de acordo com as suas convicções – quando as tem, porque às vezes parece que não – mas há momentos, em que, de tão contraditórias que são as opções, tem de haver cedências de parte a parte, em nome do bem comum. A minha grande esperança para 2010 é que isso possa ser uma realidade. Se assim for, para além de podermos ter melhores sonhos, podemos acreditar num futuro melhor. Assim seja.
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