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segunda-feira, 12 de março de 2012

Desabafos

Precisava que alguém me explicasse, assim de uma forma como se eu fosse muito “burro” – se calhar sou – algumas coisas sobre o comportamento dos nossos políticos com mais responsabilidades, mas no meu entender, muito irresponsáveis.
Porque é que temos de suportar um Presidente da República com discursos de baixo nível em termos de conteúdo, inoportunos, onde sobressai a covardia, a arrogância, o rancor, o ódio?! Será que os portugueses merecem realmente estar a ser triturados por governantes insensíveis, injustos, discriminadores e, simultaneamente, terem o pior Chefe de Estado da democracia?! Cavaco Silva – estará a ficar senil? – é um petulante responsável pelas primeiras medidas, enquanto primeiro-ministro, que nos conduziram até esta situação miserável em que nos encontramos. Infelizmente, o pior ainda não terá chegado. Como é que ele, primeiro responsável pelo abandono da agricultura, pela destruição dos barcos de pesca e de várias indústrias, não cora de vergonha ao afirmar, agora, que temos de nos virar para os campos, para o mar? É de uma enorme falta de pudor.
Deixemo-lo a tentar equilibrar os tostões da sua magra reforma. Coitado do homem, é tão perdulário, ou benemérito, se preferir, que até prescindiu do salário de Presidente da República, em troca das “míseras” pensões de reforma. Cavaco não necessita dos críticos para o fragilizarem, ele próprio, constantemente, se auto-fragiliza.
Nem Coelho, nem Relvas, nem a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque me conseguiram fazer perceber porque é que, dizem eles, não há excepções nos cortes salariais, isto é, todos vão sofrê-los, e os funcionários da TAP, da Caixa Geral de Depósitos – outros se seguirão – ficaram todos muito contentes com a decisão de entregar à administração das referidas empresas a decisão de redução no salário ou noutros elementos de remuneração atribuídos através de contratos de empresa. Você acredita que vão receber mesmo menos e estão tão felizes?! Há alguém que me explique?
Parece-me que será legítimo que os dividendos das acções correspondentes a 2011 devem ser pagos a quem for seu detentor em 31 de Dezembro desse ano. Ou então quem as vender terá de ter esse factor em conta no negócio a efectuar, a menos que seja parvo. Muito mais cuidado terá que ter quem gere dinheiro dos contribuintes. Se já me parece mal que o Governo esteja a vender acções apenas a pensar na colheita de divisas no imediato, sabendo que nunca mais irá receber dividendos, muito mais grave é descartar dividendos que são dos contribuintes, deixando-os ir para árabes e chineses, numa altura em que esmaga esses mesmos contribuintes com a mais severa austeridade de que há memória. Alguém me explica a lógica deste Governo?
Quem me explica ainda, como é possível a Lusoponte ter recebido as portagens da Ponte 25 de Abril, em Agosto passado, e receber uns milhões como se de facto os portugueses não as tivessem pago? Vão descontá-los depois?! Pois, o Governo está com tal saúde financeira que até pode dar-se ao luxo de entregar dinheiro adiantado à Lusoponte e perder o crédito, por exemplo, na indústria farmacêutica!
Transparência era uma das principais bandeiras da campanha eleitoral de Passos Coelho e do seu PSD. Passados uns meses, o que menos se vê é transparência, mas muita incompetência, muita arrogância, muita insensibilidade e até atentados à democracia por ministros anedóticos, patéticos.
Passou-se mais um 11 de Março. Porque será que os políticos, tanto de esquerda como de direita, estiveram tão caladinhos?!
Por favor, expliquem-me tudo muito bem explicadinho.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Desabafos

Se reflicto sobre os problemas do mundo, sobretudo os que têm a ver com o nosso país, que influencia e é influenciado pelo que se passa nos outros, significa que penso politicamente. Se assim é, quer dizer que o que digo e o que escrevo tem, quase sempre, uma forte matriz política. Ao contrário daqueles que, pretendendo ter um lugar de maior ou menor preponderância política, ficam prisioneiros da doutrina de um qualquer partido ou das ideias daqueles que, tendo lugares de destaque no tal partido, lhes podem servir de “muleta”, eu digo sempre o que penso, sem curar de saber se isso corresponde ao pensamento do partido A, B ou C. Aos chamados políticos, falta-lhes a liberdade de dizer o que pensam, obrigando-se a exprimir apenas o que interessa em determinado momento, mesmo que seja exactamente o inverso do que terão dito noutra altura.
Por isso vou fazendo as minhas análises, sobre diversas matérias, mesmo aquelas que não domino muito bem, sem receio de as expor publicamente, não por leviandade, por ligeireza, mas porque sou um pensador e porque todos os pensamentos são legítimos, ainda que absolutamente contrários ao pensamento dominante. Aliás, estou certo que é a diversidade de pensamentos que faz evoluir o conhecimento.
Posto isto, aqui estou eu, uma vez mais, a dizer de minha justiça, que é como quem diz, a expor os meus pensamentos, a fazer os meus desabafos.
Ah! Por falar em justiça, ela andou muito na berra estes últimos dias por causa de dois casos mediáticos, num deles com a população a querer fazer justiça na rua, o que é sempre de lamentar, por mais que nos pareça que ela não terá sido feita no lugar próprio, ou seja, nos tribunais.
Tendo ainda a ver com justiça, mas não só, não gostei de ver uma pequena peça no jornal diário que habitualmente compro, referente a sete militares que estão a ser julgados por burla com facturas falsas, que mencionava o nome de um militar, provavelmente de baixa patente, presumo, ocultando o nome dos outros, nomeadamente um major-general e dois coronéis. Por quê não os esconder todos ou mencionar todos? Parece-me que – deixe-me dizer assim, já que estamos a falar de justiça – seria mais justo. Acho que é oportuno citar esta frase muito assertiva, cujo autor desconheço: “Se estiveres à procura de algo que seja justo, lembra-te que apenas o soutien realiza esse objectivo: oprime os grandes, protege os pequenos e levanta os caídos”.
Estamos no início da época quaresmal. É altura de os católicos mais cumpridores ou, se preferir, mais tradicionalistas ou conservadores, se devotarem aos períodos de jejum e abstinência. Bom, cá em Portugal, pelo rumo que as coisas levam, já a maioria dos portugueses sejam eles ateus, agnósticos ou professantes seja lá de que religião for, estão condenados ao jejum e abstinência permanentes.
Não somos seguramente um povo de invertebrados, mas seremos, certamente, de líderes políticos invertebrados. Expõem de tal forma a sua pequenez que qualquer referência a Portugal, do sr. Obama ou líder europeu serve para que fiquem tão felizes como a criança a quem deram o brinquedo desejado, tão felizes como um “gato com um chocalho”, esquecendo-se que a maioria das vezes essas palavras nem têm praticamente significado nenhum ou significam exactamente o mesmo que as palmadinhas que os nossos falsos amigos nos dão nas costas. São, de facto, homúnculos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Desabafos

Devo confessar que este governo que nos desgoverna, por tantas e tamanhas maldades, quase impede que o meu pensamento se entretenha com outros temas. Daí que sinta que a actuação do referido governo me retire capacidade de desenvolver o meu raciocínio e me leve mesmo a temer que possa vir a sofrer de um eventual comportamento depressivo. Não seria, de certeza o primeiro a sofrer desse mal, a expensas exclusivas da governação, para além de má, no presente, inspiradora de não confiança no futuro. Por várias razões, uma delas, porque a generalidade dos portugueses nem sequer confia na palavra dos políticos que estão ao leme. Não fora eu saber que ninguém me pagaria, e porque não desejaria que pudesse ser acusado de prejudicar o erário público, exigiria uma indemnização, não só pelos males materiais que me estão a causar, mas sobretudo pelos males espirituais. Para além de estarmos constantemente a ser espoliados, não se aguenta ter de estar sempre a pensar em crise, que cada dia que vem vai ser pior do que o anterior, etc., etc. Bom, mas também iria pedir uma indemnização como?! Através de um requerimento pessoal, directo?! Através de uma acção judicial?! Não, não vale a pena. Em qualquer dos casos iria morrer, antes de obter qualquer resposta.
Sendo assim, tentando contrariar o rumo para que me conduz o pensamento vou tentar outra abordagem.
A vida, em cada momento que vivemos, se os vivermos atentamente, é uma autêntica escola que nos proporciona constantemente novas aprendizagens, nos leva a mudar de opinião, – só os burros é que não mudam – a alterar comportamentos, a ver as pessoas e o mundo de forma diferente, a conhecer melhor os humanos. Tal conhecimento permite-nos observar com mais acerto onde está a hipocrisia ou a franqueza, a gratidão ou a ingratidão, a lealdade ou a deslealdade, a verdade ou a mentira, a justiça ou a injustiça, a bondade ou a maldade, a humildade ou a arrogância, a competência ou a incompetência, a vaidade ou a simplicidade, o mérito ou o demérito, a valentia ou a cobardia, o altruísmo ou o egoísmo. Concluímos, assim, sem qualquer espécie de dificuldade e sem necessidade de uma inteligência acima da média, que vivemos num mundo de tal forma desinteressante, de pernas para o ar, onde sai vitorioso tudo o que é negação daqueles valores que deveriam ser universais e pelos quais, infelizmente, poucos se regem.
Entre muitas outras coisas que os nossos sentidos recolhem e o nosso cérebro descodifica, a minha sensibilidade, a minha inteligência ficam feridas com determinadas homenagens, mais abrilhantadas umas, mais singelas outras, expressas apenas em mais ou menos elaboradas, mais ou menos extensas peças literárias.
Porque me dou conta de tudo isto, porque me repugna a mediocridade em que tantos se encontram situados, mas tudo fazem por aparecerem num qualquer periclitante pedestal, a minha revolta torna-se maior ainda, quando tenho a certeza de que muitas das ditas homenagens não passam de um repugnante exercício de hipocrisia. Hoje, através das redes sociais, apercebemo-nos muito mais facilmente desse fenómeno. Quase todos nós conhecemos pessoas – eu conheço – que, pelas costas, dizem “cobras e lagartos” de algum ou alguns ditos amigos. Pois é só estar atento ao que dizem de frente ou ler algumas referências nas ditas redes sociais. Quem não conhecer até conclui que se trata de pessoas capazes de darem a vida umas pelas outras e todas vestidas de excelsas virtudes. Como é possível existir tanta hipocrisia?! Como é possível, como por cá se diz, “andar meio mundo a enganar outro meio”?!
Amigos?! Mas que amigos?! Aprecio mais aqueles que são capazes de dizer não, que são capazes de discordar e justificar.
Muitos amigos?! Não, o que muitos têm são muitas pessoas conhecidas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Desabafos

Muito provavelmente porque já estou numa idade em que se recordam mais facilmente os factos longínquos – no tempo – do que os mais recentes, numa idade em que ainda é bem forte a vontade, mas bem mais fraca a força, apetece-me a recuar uns bons anos atrás. Também um pouco para tentar esquecer as agressões constantes de que são vítimas polícias e idosos, passando pelos membros da família e todos os que se cruzarem com gente criminosa, aos molhos, que anda por aí, à solta, muita dela com a bênção de juízes indignos desse nome e ainda as agressões que nos são infligidas – a quase todos - sem dó nem piedade, pela dupla merkliana Coelho-Gaspar.
Já por diversas vezes me tenho referido ao assédio sexual. Vou fazê-lo uma vez mais e vai ver como já há meio século estes pobrezinhos indefesos que são os homens eram vítimas de assédio sexual por parte das mulheres.
Era eu já professor efectivo, quando fui chamado a cumprir serviço militar obrigatório. Depois de ter passado por outros quartéis, estava no Regimento de Artilharia de Costa, em Oeiras, onde me mantive cerca de três longos anos. Habitualmente tomava a “bica”, como por lá se chamava ao nosso “café”, após o almoço, num pequeno bar subterrâneo, na estação de caminho-de-ferro. À mesma hora fazia o mesmo uma garota linda, escultural, aquilo a que nós chamávamos um “monumento”. Como apreciador do belo que ainda me prezo de ser ( e nada há de mais belo do que uma mulher), percorria-a, com o meu olhar, de alto a baixo. Ia olhando…apenas olhando.
Um dia, passados não muitos dias, a garota aproxima-se de mim e, numa voz angelical, questiona-me:
- É professor, não é?!
Militar era fácil saber que eu era, pois via-me fardado, mas onde dianho teria ela ido descobrir que eu era professor?!
Bom, como diria a Teresa Guilherme “isso agora não importa nada”, respondi-lhe:
-Sou, sou, pode sentar-se se quiser.
Anuiu e, ao mesmo tempo que se sentava, dizia:
- Tenho umas dúvidas que gostaria que mas tirasse.
- Com certeza, desde que isso esteja ao meu alcance – retorqui, eufórico, confesso.
Cá está um assédio de que eu não me queixaria à polícia.
Era uma ribatejana universitária e vivia num quarto alugado, ali a dois passos da estação e do quartel.
Combinámos um jantar para esse mesmo dia, num simpático restaurante, em Carcavelos. Ambiente acolhedor, mais propício a encontros românticos do que para dar qualquer explicação sobre matéria escolar. Quando saímos, mais parecíamos dois jovens a arder de paixão do que duas pessoas que mal se conheciam ainda. Ela tinha uma voz melíflua, uma ternura indescritível. Chegados a casa, os senhorios, um casal de reformados, dormiam.
Sem necessitar de muita persuasão, mas imensa cautela, pé ante pé, não fossem os velhos ouvir, entrei no quarto dela. E com ela dormi (creio que nessa não dormi) a primeira de muitas noites. Jamais dormi no quartel, a não ser quando as escalas de serviço a isso me obrigavam. Passei a ter uma doce e terna companheira, tão terna e tão meiga que de quando em vez me recordava que deveria ir ao Porto visitar a namorada a sério que ela sabia que eu tinha. Ou será que o que ela queria era uma folgazinha?! Nunca acreditei nisso.
Passei a ter sempre roupa bem lavada e impecavelmente passada a ferro. Boa Lili. Que será feito de ti? Tinha todos os dotes para fazer um homem feliz. Obrigado, Lili, onde quer que estejas, na Terra, ou, sei lá, no céu, pelos bons momentos que passámos. Foi-se a tropa, foi-se a Lili. Ambos sabíamos que o fogo que nos incendiava os corpos só durava enquanto durasse a minha guerra, isto é, a minha permanência naquele quartel. Faço votos para que ela, se for viva e casada, seja feliz com seu marido como eu sou com minha mulher, minha namorada de então, a sério, embora traída, reconheço. Era uma mera traição física e com tempo determinado.
Nessa época, as namoradas e as próprias esposas perdoavam tudo. Os homens, por força da guerra e da emigração eram tão poucos que qualquer traste era considerado “artigo de luxo”. Lembro-me que, por assim ser, um colega meu, bem mais velho e engraçado dizia que as mulheres que conseguissem arranjar namorado e casar deveriam pagar imposto. Bom, o melhor é falar baixinho, porque se o Coelho ou o Gaspar se lembram disso, lá vem mais um imposto.
Resta referir que nunca cheguei a saber, nem disso fiz questão, quais as dúvidas que queria que lhe tirasse. Provavelmente dissipou-as mesmo sem perguntar.
Agora diga-me se entre nós os dois não fui eu quem foi vítima de assédio sexual!
“Ce que femme veut, Dieu le veut” , que numa tradução livre se pode dizer que a mulher consegue sempre aquilo que quer.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Desabafos

Somos de tal forma e permanentemente bombardeados e massacrados com o vocábulo “crise” e, pior do que isso, com os seus efeitos, que, por mais que tentemos, é-nos extremamente difícil conduzir os nossos desabafos noutro sentido. Espoliados por um governo prenhe de imbecis, incompetentes, cobardes, de gente sem coluna vertebral, subserviente, que obedece cegamente, sem um reparo, uma tentativa de negociação ou a apresentação de uma proposta que revele, ainda que minimamente, que não pretendemos entregar a nossa independência sem luta, para além de espoliados, seríamos tratados como lixo se não desabafássemos, se não manifestássemos o nosso repúdio por tudo o que de mal nos estão fazendo. A nossa revolta tem tanto mais justificação porquanto sabemos que ainda estamos a ter uma pequena amostra do que aí vem e que esses falsos – sobretudo porque mentirosos – governantes apregoam, ao contrário daquela ministra italiana que deixou cair as lágrimas ao anunciar medidas de austeridade para os seus compatriotas, com o ar de quem está a anunciar um feito heróico, de quem se acha que um dia, ainda que ninguém o faça, se hão-de considerar salvadores da pátria.
Para além do aumento de receita e não diminuição de despesa que conseguiram através do roubo que já fizeram nos salários e nas pensões de muitos de nós e do que vão continuar a fazer, apresentam-nos, com o ar mais patético do mundo, medidas com aumentos de mais de cem por cento. É intolerável, é insuportável, é necessário arranjar forma de mandar esta gente para o olho da rua o mais depressa possível antes que fiquemos todos, não de tanga, mas nus, numa espécie de Biafra.
Esta obsessão do défice é absolutamente doentia. Todos nós concordaremos que é salutar que os Estados, como as famílias e os indivíduos devam controlar as suas finanças, gastando apenas aquilo que tenham capacidade de saldar. Aquilo que eu digo não é alicerçado em quaisquer conhecimentos académicos de economia, mas tão só aquilo a que a necessidade de gerir a minha economia familiar me ensinou. E aprendi à minha custa que se não me fosse dada a possibilidade de dever dinheiro, muito provavelmente nunca teria tido um automóvel, nunca teria a minha casa e, possivelmente nunca teria usufruído, ou tê-lo-ia muito mais tarde, de variados equipamentos. Quer dizer que a minha qualidade de vida teria sido bem pior. Hoje tenho a minha casa, o meu carro e muitas outras coisas que me foram possibilitadas por me ter sido possível gerir um défice e não devo nada.
Antes de outro comentário, eu pergunto: se há um ou dois anos eu tivesse adquirido um qualquer bem, a crédito, na expectativa legítima de que continuaria a receber 14 meses de pensão e que ninguém ousaria usurpar parte dela, como é que eu ficaria na situação actual e na que aí vem? É para pôr na penúria quem sempre trabalhou, sempre fez religiosamente os seus descontos, que temos um governo? – Será que merece esse nome?
Sem dinheiro para gastarmos, o que conduz ao encerramento do mais variado tipo de empresas e consequente aumento do número de desempregados, para que serve um défice que agrade à hitleriana Merkel, aos desbotados senhores da troika ou aos mercados? Fazem-nos algum favor?! São assim tão nossos amigos?! Emprestam-nos a juros baixos?!
Está à vista: estes iníquos governantes estão obcecados pelo défice, com receio de levarem umas palmadas da senhora. Doa a quem doer, que vá para a miséria quem tiver de ir, eles só não retiram aos funcionários públicos e pensionistas vinte, trinta, quarenta por cento do salário e pensões para chegarem ao défice zero e se colocarem triunfalmente em cima dos cadáveres, sucumbidos pela fome, porque, sabem que antes disso, teriam sido corridos, se não com cravos nos canos das espingardas, com a força do povo nas ruas.
Deixe-me aliviar um pouco a tensão: aqui há muitos anos uma prima minha, moçoila de dezoito anos, de linhas bem definidas e uma carita bonita, no consultório do dentista, “tremendo como varas verdes”, sentada naquilo que para ela deveria parecer a cadeira eléctrica, à voz do médico, de instrumentos na mão: “abra a boca, menina!”, reagiu assim: Abriu a boca e bem, mas foi para gritar o mais alto que os seus pulmões lhe permitiram: “ó da guarda, acudam, ó da guarda”.
Imagine a atrapalhação do médico, com clientes na sala de espera a ouvir estes gritos.
Ó da guarda, acudam, ó da guarda é o que nos apetece gritar perante as medidas tomadas por este troiko-franco-germano-dependente governo. Há quem o defenda, quem o admire?! Há. Sobretudo aqueles para quem não existe crise que os afecte.
“Un sot trouve toujours un plus sot qui l’admire” – um tolo encontra sempre outro mais tolo que o admira.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Desabafos

Com o hábito que os portugueses, sobretudo os nortenhos, têm de falar alto na rua, nos transportes públicos, nos cafés, nas salas de espera de hospitais, centros de saúde ou de outras instituições, é fácil apercebermo-nos do que dizem e do estado de espírito dessas pessoas. Uma das expressões que tenho ouvido com muita frequência é “ladrões”. Pelo decorrer da conversa que involuntariamente oiço, rapidamente me apercebo que a dita expressão se refere a quem tem a responsabilidade de nos governar. Ponho-me a meditar sobre o assunto. E se por um lado verifico que a democracia vai “sofrendo tratos de polé”, com o povo a ser desrespeitado constantemente, a ponto de entender que todos devemos estar em alerta, por outro, constato que por enquanto ainda se pode usar uma linguagem que há quarenta anos nos levaria facilmente aos calabouços da PIDE/DGS. Mas não há que fiar.
Meditando depois sobre a expressão propriamente dita ou seja “ladrões”, muito embora ela possa parecer exagerada, é a que vulgarmente as pessoas utilizam para referenciar quem rouba. De facto, muita gente se sente roubada por um governo que tem um primeiro-ministro de direito – o primeiro-ministro de facto é o Relvas, o que disse que o corte dos subsídios de Natal e de Férias eram para sempre – que, depois de afirmar, enquanto líder da oposição, que não se poderiam pedir mais sacrifícios aos portugueses, agora não tem feito outra coisa senão espoliar despudoradamente os bolsos dos nossos compatriotas. Que outra coisa se deve chamar para não parecer tão feio? Gatuno?! Larápio?! Trapaceiro?!
Eu, enquanto funcionário público, fiz uma carreira contributiva completa. Nem lhe poderia fugir. Fi-la, na expectativa legítima que teria até ao final dos meus dias catorze meses de pensão. Assim tem sido desde há uns anos. Eu ainda não morri e as regras não devem ser alteradas a meio do jogo, por isso também eu me sinto roubado. E que devo eu chamar a quem me rouba? Ladrão, obviamente.
Um outro aspecto relacionado com este que eu quero abordar é o seguinte: diz o governo que quer acertar as contas públicas, sobretudo através da despesa. Concordo que assim deva ser, mas não é exactamente esse o caminho que está a seguir. Dizer que o Estado vai reduzir a despesa à custa do corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e dos pensionistas é uma falsa questão. Como os referidos cortes se tratam de um assalto aos bolsos dos ditos, como se os pobres coitados tivessem, eles e só eles, cometido o crime de empobrecer o país, trata-se de uma receita que o governo desavergonhadamente arrecada e não de uma redução de despesa.
E já agora essa de os funcionários públicos ganharem mais do que os das empresas privadas é uma balela. Porque será que ouvimos tantos ministros e outros políticos dizerem que ganhavam mais nas empresas privadas do que enquanto no exercício de cargos políticos?!
Tenho um filho e uma filha: ele tem uma licenciatura de cinco anos e trabalha numa empresa privada; ela tem um mestrado daqueles que se fizeram depois de uma licenciatura de cinco anos e trabalha numa instituição pública. Ele ganha muito mais do que ela, tem carro e mais uma série de regalias. Ele vai continuar a receber, felizmente, o subsídio de férias e de Natal. Ela nem um nem outro. Onde está a justiça?
Por falar em justiça, cada vez que lemos ou ouvimos um órgão de comunicação social, entram-nos pelos olhos ou pelos ouvidos factos que nos levam a crer cada vez menos nela. Não acreditarmos nela, que é o que cada vez acontece mais, pode levar as pessoas a procurar fazer justiça pelas suas próprias mãos. Se já vivemos num clima de grande insegurança, se chegarmos a esse ponto a situação piorará.
Quando tomamos conhecimento que desembargadores – não foram juízes principiantes – absolvem um médico que violara uma mulher a quem puxou a cabeça para lhe fazer sexo oral e ainda a atirou para cima da marquesa, que confiança poderemos ter em quem julga?!
Culpa de quem? Provavelmente dos operadores e das leis. Leis, muitas delas que terão sido propositadamente feitas para os poderosos, os que têm dinheiro para recursos e mais recursos e beneficiar das entrelinhas dessas mesmas leis a que só eles têm acesso.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bandeiras

Quando iniciei o cumprimento do serviço militar, a meio da década de sessen-ta, portanto nos primeiros anos da inútil, inglória e cruel guerra colonial, já eu era professor efectivo, como na altura se dizia, e sabia que o boato era uma arma poderosíssima, letal, muitas vezes, utilizada tanto para destruir o carácter de muitos cidadãos, como para, através dele, pessoas ou grupos, colherem benefícios. Não obstante os muros que se erigiam em nosso redor, mantendo-nos no maior obscurantismo possível, tinha, de facto, alguma noção da impor-tância do boato. Foi, no entanto, enquanto militar que fiquei a conhecer o seu real valor e como ele era utilizado pelas chefias militares, com resultados posi-tivos. A sua eficácia, sobretudo no limiar da guerra, em que as tropas indígenas eram possuídas de muita ingenuidade, chegava a ser maior do que as Mauser, as G3, as minas, os tanques, etc. O fenómeno do boato era de tal forma importante que era seriamente estudado.
Militarmente, continua hoje a ser amplamente utilizado, não só durante o período em que ocorrem as intervenções, mas antes mesmo, para as justificar. A intervenção no Iraque, por exemplo, a que infelizmente o nosso país está ligado, foi justificada através daquilo que terá sido um boato hábil e conscien-temente forjado. É assim no campo militar, na política, infelizmente, também na vida social e profissional. Quando se quer derrotar alguém ou colher determi-nados benefícios, nada melhor do que criar engenhosamente e fazer espalhar – há sempre gente sequiosa por o fazer – um boato. Os políticos que o digam.
Tirando esses boatos que pretendem derrotar, abater ou colher benefícios, surgem outros, de quando em vez, que nem é fácil adivinhar-se-lhes a intenção nem a origem. Alguns deles só servem para desestabilizar um determinado grupo ou população, mas são de tal forma destituídos de credibilidade que não merecem que quem quer que seja lhes dê qualquer publicidade. Em nome da tranquilidade pública é de bom senso que os que os ouvem, ao invés de os propagar, os encerrem dentro de si, e/ou, antes de tudo, procurem confirmar se existe alguma réstia de veracidade, porque também não devemos esquecer o adágio que diz que “não há fumo sem fogo”, nem que seja o de uma ténue e extenuada lamparina.
Curioso. Muito curioso. O PSD, anda, de uns tempos a esta parte, a desfral-dar a bandeira da liberdade de expressão, de modo a que até já protagonizou a criação no Parlamento, de uma comissão de ética e, posteriormente, de uma comissão de inquérito. Como praticamente todos os políticos, também os do PSD têm fraca memória. Não vale a pena recordar aqui alguns factos, mas valerá certamente lembrar o que Granadeiro disse relativamente a Morais Sar-mento, que este pretendia que fossem demitidos três directores de órgãos de comunicação social. Quem tem telhados de vidro deveria ser mais prudente. Bom, mas como o PSD não estava ciente se os portugueses teriam a certeza de que ele não é melhor ou diferente daqueles a quem acusa, resolveu, no final do último congresso, garantir-lhes isso mesmo com a aprovação da já denominada lei da rolha. Triste figura. Muitos acharão que não estamos bem, mas cada vez mais também terão a certeza de que não vislumbram qualquer alternativa credível.
Os três principais candidatos a líder estiveram lá, mas foi interessante ouvi-los, no fim, dizer que não concordavam com tal lei e que, sendo eleitos, a pro-curariam alterar em próximo congresso. Veremos. Estando lá, no “poleiro”, tal despropositada lei dar-lhes-á um jeitão, como daria a qualquer outro líder.
De Alberto João Jardim tudo se pode esperar. Pedro Passos Coelho não terá sido muito feliz com aquela do perdoa-me que eu já te perdoei, pretendendo fazer passar uma imagem de humildade, que, a existir, mais importante do que isso tratava-se de “piscar o olho” a votos madeirenses. Mesmo assim, nem ele, nem os portugueses, que estão a dar um exemplo extraordinário de solida-riedade para com a Madeira e os seus irmãos madeirenses, esquecendo as ofensas do seu “chefe”, mereciam aquela grosseria de, como resposta ao can-didato a líder, se ausentar do seu lugar e ir sentar ao lado de outro candidato, o Paulo Rangel. É esta gente que fala de ética?! São estas as suas bandeiras?!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Censura...com ou sem moção

Foi-se o carnaval do calendário, ficou e parece que pegou de estaca, o carnaval político. Neste mundo a tornar-se nauseabundo onde foçam muitos dos nossos políticos e outras espécies conhecidas, quase todos pigmeus, exactamente no que diz respeito à estatura política, moral, ética, vemo-los constantemente mascarados, sobretudo através do seu discurso, de forma que nunca sabemos quando é que temos o político verdadeiro à nossa frente, se é que alguma vez o chegaremos a ter. É como se vivêssemos num carnaval permanente.
Pegando em alguns dos temas que estão na berra e sobre os quais já me debrucei, deixe-me fazer ainda mais alguns comentários. Sem qualquer critério de prioridade, quero começar pela repugnante imbecilidade de Paulo Rangel ao afirmar no Parlamento Europeu – repugnante sobretudo por serem afirmações fora de portas – que Portugal tinha a sua liberdade amordaçada. Só quem não viveu antes da revolução libertadora de Abril e não quer conhecer, ou finge não conhecer, por conveniências políticas e pessoais, a história desse período, e lhe dá jeito distorcer o presente, pode fazer tal afirmação. Certamente falou mais alto a pressa em exibir algo que ele julga de importante para justificar a sua também apressada, segundo os seus correligionários, apresentação da candidatura à liderança do PSD. Não começa bem. Como é que alguém que se coloca na posição de hipotético primeiro-ministro de um país, o anda a denegrir pela estranja?! Como é que alguém pode falar em país amordaçado, em censura, se toda a gente diz e escreve o que lhe apetece, mesmo incorrendo em crimes e não acontece nada?! Só por isso, Paulo Rangel não merece, segundo o meu ponto de vista, ser líder de um partido que inevitavelmente o catapultaria a candidato a primeiro-ministro. Num país com censura, sem liberdade de expressão, leríamos e ouviríamos todos os dias o que lemos e ouvimos?! Como é que alguém que utiliza a comunicação social para fazer as mais graves afirmações, verdadeiras ou falsas, a respeito das mais altas figuras do estado, não lhe acontece nada e proclama à boca cheia que temos aí a censura. Ah! Se eles de facto soubessem o que ela foi?!
Já afirmei que não há liberdade a mais nem liberdade a menos. Se em Portugal há algo que em termos de liberdade pode chocar é não se respeitar a justiça, é difamar, caluniar, não se respeitarem muitas vezes os direitos humanos, no que toca à informação e ninguém ser responsabilizado por isso. Se eu tivesse outra mentalidade, outra formação, se não tivesse vivido no tempo em que vivi, teria a tentação de dizer, como muitos, que o que existe em Portugal é liberdade a mais. Mas não, não digo. O que existe, sim, é uma enorme falta de respeito pela pessoa humana, uma enorme falta de respeito pelas leis, cujo exemplo vem de cima, e uma enorme incapacidade de exercer a justiça em tempo oportuno.
Já que tenho estado a falar de censura, vem a talho de foice falar de moções de censura. A moção de censura é um instrumento de controlo político do governo, à disposição da oposição na Assembleia da República. A aprovação de uma moção de censura, por maioria absoluta – 116 deputados no mínimo – implica a queda do governo. Tudo o que Portugal não precisa neste momento é da queda do governo. Não por ser este governo. Fosse ele qual fosse. Assim sendo, embora reconheça legitimidade ao partido do governo para desafiar a oposição, por tão mal dizer do mesmo governo, a apresentar uma moção de censura, acho, para além de leviandade, uma grande hipocrisia fazê-lo. Leviandade, porque não é o momento de, através de uma crise política, agravar ainda mais a situação económica e baixar a credibilidade do país, internacionalmente. Hipocrisia, porque o partido do poder só faz tal desafio na confiança de que dá à oposição um sinal de força e de que ela não se atreverá a apresentar tal moção. E se porventura viesse a apresentar, não seria porventura o PS a perder mais.
Por seu lado, a oposição, nomeadamente o PSD, quando se refugia no interesse nacional para negar a oportunidade de uma moção de censura, também o que revela é uma grande hipocrisia. Acreditasse o PSD que poderia tirar dividendos, isto é, vencer as eleições legislativas que se sucederiam à queda do governo e não hesitaria em servir-se de tal instrumento, na esperança de que tivesse o apoio das outras forças. Primeiro há que os “galos” lutem pelo poleiro e um o conquiste e se afirme para, quando e se achar oportuno, mande às malvas o interesse nacional e provoque eleições. É assim que todos procedem.
Já nem me lembro se li ou ouvi que andam por aí uns sms a convocar para uma manifestação de apoio a Sócrates. Se é verdade, não auguro nada de bom e lamento. Tanto mais porque são cobertos pelo anonimato. Anonimato que sempre abominei. Vêm-me à memória as grandiosas manifestações de apoio a Salazar e Caetano, com autocarros e autocarros a desembocarem no Terreiro do Paço cheios de pessoas, a maioria delas, obviamente, não convocadas, por sms, mas obrigadas pelos caciques, nem sequer sabendo o que iam fazer. Num regime democrático, manifestações desse jaez não se justificam e podem ser mau prenúncio. Espero que não passe de uma brincadeira carnavalesca.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O "circo" foi de férias

Está tudo muito mais calmo. Essa febre avassaladora de beijar, abraçar, dar apertos de mão, sem sequer se preocuparem com o vírus da gripe, porque um voto vale mais do que um vírus, acalmou. Voltou tudo à normalidade. O político – refiro-me aos políticos em geral e de todos os quadrantes - já não invade feiras e mercados, não bebe da malga de barro, não dança com as peixeiras, não “ajuda” nas vindimas, já não faz um ror de promessas, enfim, já não conhece o povo, aquele que provavelmente enganou e, com o seu voto, lhe garantiu a sobrevivência.
O “circo” fechou as portas, foi de férias, para regressar quando se aproximarem novas eleições, que espero sejam as presidenciais, embora nestas ele se mostre sempre com menos exuberância. Agora, alguns dos “palhaços”, trapezistas”, “malabaristas” e outros “artistas” transformaram-se em autarcas, deputados, alguns serão ministros, secretários de estado, assessores, consultores, outros ainda ficam na lista de espera, em bicos de pés, aguardando ansiosamente a sua vez de alcançar “um lugar ao sol”. Tanto abraço, tanto beijinho, tanta palmadinha nas costas é sacrifício que só se faz na esperança de um compensador lugar, ainda que sem a mínima competência para o desempenhar. E, mesmo assim, um dia hão-de ter um louvor, o nome prantado numa placa de uma qualquer rua ou avenida, mesmo um busto em qualquer praça, ainda que inventada, mesmo que o povo não reconheça qualquer mérito nem tenha tido oportunidade de pronunciar-se. Ainda há muitos laivos na democracia de muitas das nossas instituições, mas nenhum partido político tem autoridade moral para acusar o outro, porque isso se verifica facilmente em instituições dirigidas por pessoas afectas a qualquer dos partidos.
Se o “circo” fechou, ainda estão por aí, lamentavelmente, a conspurcar o ambiente das nossas praças, das nossas ruas e estradas, os cromos com as caras dos “artistas”. Em nome de um melhor ambiente visual, é bom que se não descuidem a fazer a limpeza que se impõe.
O circo está morto, mas descansem, senhoras e senhores, que o circo há-de voltar e, com ele, os mesmos e novos “artistas”, sorridentes, bem dispostos, simpáticos, a reconhecerem-vos, de novo, após um período de “amnésia”.
A diferença mais substancial que eu encontro entre os animais deste “circo” político e os do circo verdadeiro, é que aquele tem a lei da paridade, que obriga a que os sexos coabitem, neste, ao contrário, não podem coabitar animais de sexos diferentes, a não ser que sejam castrados.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Alimente o sonho

“Pobre não é o homem cujos sonhos se não realizaram, mas aquele que nunca sonha” – Marie von Ebner-Eschenbach.
Sem sonhos, imensos sonhos, a minha vida teria sido completamente diferente. Sonhos que condicionaram a minha vida e que influenciaram a de muitos dos meus conterrâneos, que ainda hoje são beneficiários da concretização de alguns desses sonhos, aparentemente irrealizáveis, e que provocaram reacções do tipo “Velhos do Restelo” a uma grande parte daqueles a quem eu e mais alguns – muito poucos – dávamos conta desses mesmos sonhos e da nossa vontade indomável de os concretizar, pedindo apoio.
Foi assim com o jornal O Nespereirense, que além de ter sido um defensor intransigente dos interesses da freguesia, foi um excelente elo de ligação entre os que cá continuavam lutando para viver ou sobreviver e aqueles que se espalharam pelas quatro partidas do mundo e que só acabou porque alguns tentaram fazer dele trampolim para as suas ambições políticas, defraudando a sua matriz editorial e a intenção que levou à sua criação. Diga-se, em abono da verdade que hoje, com os meios de comunicação modernos, já não teria a justificação de outrora, se bem que, em nome de uma língua portuguesa com um mínimo de correcção, que contrasta com frases e páginas miseráveis que se lêem por aí, quando se navega por esse mar imenso que é a “net”, talvez ainda valesse a pena. Pelo menos, alguns não desaprenderiam o português que sabem e poderiam ainda aprender qualquer coisa mais.
Foi assim com a criação da Casa do Povo, que proporcionou que centenas de idosos recebessem a sua pensão, ainda que pequena, mas que era tão importante para quem se habituara a viver com tão pouco e nunca recebera nada, que os fazia felizes, e muitos deles ainda conseguiam fazer poupanças. Casa do Povo que deu ensejo a que os jovens futebolistas de Nespereira disputassem, pela primeira vez, campeonatos de futebol, no caso concreto, os do INATEL, de que se saíram tão bem e que gerou um tal entusiasmo em praticamente todos os nespereirenses que, em casa ou fora, prestavam um apoio extraordinário. Foram tempos de futebol que os que os viveram jamais esquecem. Casa do Povo que proporcionou que, pela primeira vez, jovens de Nespereira participassem em provas de atletismo. Casa do Povo que organizou eventos de entretenimento e, pela primeira vez, trouxe à terra nomes consagrados da música e da canção.
Foi assim com a construção do campo de futebol do Olival, onde até a ameaça com tribunal não foi sonho, mas que não passou disso mesmo. À época, sem acessos para o campo da Portelinha, não havia hipóteses de competir, não fosse o Olival. Hoje, se os que têm a idade em que nós tivemos os sonhos e não tivemos receio de os transformar em realidade, os tivessem também e vontade de fazer, pressionando o poder, exigindo do poder, como nós o fizemos, talvez se pudesse já ter umas boas instalações desportivas para o futebol e não só, na mesma Portelinha.
Foi assim com a Associação de Bombeiros, algo inacreditável para a maioria. Os que sonharam e acreditaram que o sonho poderia concretizar-se, não esmoreceram e ela aí está viva, pujante, prenhe de prestar inestimáveis serviços à região, ao país.
Foi assim com a criação do Hino dos Bombeiros Portugueses. Era eu dirigente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando, numa reunião, se falou que se andava há muitos, muitos anos a pensar num hino. De imediato sonhei que seria capaz de concretizar essa vontade. Imediatamente também sonhei que seria o meu amigo e parente maestro Pereira Pinto que iria ser a trave mestra dessa realização. Falei com ele, trabalhamos e o Hino aí está, lindo, tocado e cantado em todo o país, nas cerimónias mais importantes dos bombeiros.
Se todas estas coisas não tivessem acontecido, não tenho a menor dúvida de que a minha vida teria sido diferente. Melhor, pior? Diferente. Seja como for, tenho um enorme orgulho em ter sido como fui, em ser o que sou, em ter acreditado nos sonhos. Dos erros que cometi, sempre os assumi, “não chutei para canto” e retirei deles as aprendizagens que poderia ter retirado. O orgulho é tanto maior porquanto tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que sou, tudo o que faço, não foi utilizado, não utilizo, não utilizarei como trampolim para alcançar qualquer cargo na política.
Pela forma como a minha vida se foi processando, é fácil de adivinhar que não gosto de pessoas que têm medo de arriscar, de avançar, que não têm sonhos e, se os têm, mingua-se-lhes a força ou capacidade para os converter em realidades. Manuela Ferreira Leite, pelo programa que apresentou, pelas afirmações que tem vindo a fazer, revela que é uma mulher gasta, sem sonhos, que não vê mais longe do que aquilo que os seus olhos, possivelmente também já cansados, conseguem ver. Manuela Ferreira Leite não se compromete porque lhe falta rasgo, coragem, capacidade de arrostar com as dificuldades. Uma pessoa assim, não serve para primeiro-ministro, porque fará com que Portugal não avance, mas antes recue em relação aos nossos parceiros europeus. Sem menosprezar o pragmatismo da realidade, sem tirarmos os pés do chão, mesmo assim temos de arriscar, temos não só de sonhar que somos capazes, mas depois, trabalhar para concretizar o sonho.
Se não ousasse sonhar, o homem não teria pisado a lua, os nossos navegadores não dariam a conhecer novos mundos ao mundo, não se inventariam as curas para as graves doenças, não se construiriam os grandes impérios industriais, económicos, a tecnologia não teria chegado onde chegou e sei lá onde pode chegar mais.
Temos necessidade de alguém que nos alimente o sonho de que amanhã será um dia melhor e esse não é certamente Manuela Ferreira Leite.
Porque já não sonha, porque diz não apresentar o programa eleitoral em férias, porque ninguém lê, exactamente a única altura do ano em que alguns podem ler; porque apresenta um programa, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, para apenas dois anos, porque não tem ambição para quatro anos, digo eu; porque afirma que agora temos um “Estado que se transforma numa máquina ao serviço do poder”, quando há pouco tempo atrás falava em suspender a democracia seis meses, aliás concordante com a sua mudez significativa perante os inúmeros atentados à democracia perpetrados pelo seu companheiro de partido, Alberto João Jardim; porque fala em suspender, rasgar, sem se comprometer com o que fará exactamente; porque os professores mais velhos se devem lembrar da sua avaliação, quando Ministra da Educação; porque todos se devem recordar do congelamento de salários, quando Ministra das Finanças, em época que nada tinha a ver com esta, de crise económica e financeira mundial e que não é da responsabilidade do governo; por tudo isso e por várias outras razões que seria fastidioso enumerar, não é desejável que seja ela a liderar um governo. Apesar da minha idade, de quando em vez, já me provocar algumas traições de memória, julgo não a ter curta, ainda. Não sendo um incondicional defensor de Sócrates, antes pelo contrário, e nem sequer ser militante do Partido Socialista nem de qualquer outro, neste momento, segundo o meu ponto de vista, ninguém se apresenta como alternativa credível a Sócrates.
“A existência seria intolerável se não houvesse sonhos” – Anatole France. Por isso eu quero-me com quem me permita sonhar e não com quem representa pesadelos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

As listas

“Alea jacta est” – está lançada a sorte. Estão entregues as listas de candidatos por partidos ou movimentos independentes para as eleições autárquicas. Depois de namoros e namoricos, dos oferecimentos de uns, da colocação em bicos de pés de outros, das zangas de outros tantos, das mudanças de cor, imitando os camaleões, de outros ainda, da aceitação despreocupada e irresponsável de alguns, dando o nome, apenas para ajudar a compor o “ramalhete”, daqueles que se propõem, “desinteressadamente”, apenas por, nalguns casos, repentino amor à terra e aos seus concidadãos – coisa de que nunca ninguém dera conta – já se sabe quem se propõe a prestar-nos contas pelo que fizerem ou deixarem de fazer, em tudo o que for de sua obrigação ou competência. Uns estarão mais felizes do que outros, seja porque de facto os nomes propostos lhes agradam, seja porque são pouco exigentes, seja ainda porque imaginam o papel do autarca menos importante, com menor responsabilidade do que aquela que realmente tem. Será até exactamente por este último aspecto, isto é, por ignorarem a responsabilidade que cai sobre os ombros de um autarca, aquilo que ele pode e deve fazer, pelas competências que tem e pela influência, pela capacidade de pressão que deve exercer sobre os órgãos superiores que têm poder de decisão em matérias que ele não tem, que alguns cedem o nome para completar as listas e acham que para ser autarca qualquer “calhau com dois olhos” serve. Bem, há casos concretos em que parece que de facto assim é. E não devia ser, porque é exactamente na gestão autárquica, ao nível de freguesia, que começa ou não o verdadeiro desenvolvimento territorial, social, cultural, económico. Quem se der ao trabalho de reflectir sobre essa matéria e estudar, ainda que superficialmente, o desenvolvimento de cada uma das freguesias de um determinado concelho, verificará que, com os mesmos apoios camarários, em termos proporcionais, alguns autarcas tiram o máximo proveito disso, dinamizam as populações e as forças vivas, interagem com o município, quando isso é de interesse, sem olhar a cores partidárias, avançam; outros, como diz o povo, limitam-se a gerir “o que cai do céu”, quando não mesmo malbaratar e “não saem da cepa torta”.
Voltando ainda às listas para as autárquicas, neste ano, tornou-se mais complicada a sua elaboração, dado que para cumprir o que está estabelecido sobre a paridade e de que eu já falei, não podem figurar mais de dois elementos consecutivos do mesmo sexo. Sabe-se que alguns responsáveis tiveram dificuldades em conseguir mulheres, acontecendo que algumas apenas deixaram utilizar o nome, como já se disse, mas sem qualquer espécie de comprometimento. Ouvi coisas como estas: “está lá o meu nome, mas quero lá saber quem vai ganhar; se calhar até vou votar noutra lista”. Deixe-me dizer-lhe, no entanto, que já ouvi homens fazer o mesmo tipo de afirmações. Quando uma lista de um partido, cujo nome não interessa referir, tem menor número de votos do que o número de pessoas que integravam a respectiva lista, que se há-de dizer?!
Isto leva-nos a pensar que para algumas pessoas, determinadas formalidades da democracia, que teriam, deveriam ser encaradas de uma forma muito séria, não passam de mera “palhaçada”. É uma tristeza que vem confirmar aquilo que, por diversas vezes denunciei: a maioria dos partidos, pelo menos ao nível concelhio e de freguesia, não trabalha, não se preocupa em preparar gente capaz de liderar, de dirigir uma freguesia, um município. Os respectivos líderes partidários devem ser apologistas da táctica de quantos menos a reinar melhor, para assim porem e disporem a seu bel-prazer, na certeza de que nunca lhes faltarão “ovelhas” submissas para ocuparem os lugares. E, à boa maneira salazarista, quanto menos instruídos forem, mais subservientes serão. Mais, até lhes convém ir “arrebanhar” algumas “ovelhas” que já “pastaram” noutros prados, quer dizer partidos, onde não puderam trepar tão alto quão altas são as suas ambições, não obstante tão baixas competências. E sabe porquê? Porque também a esses é fácil controlar, porque, como não fazem parte das hostes militantes, eles sabem que à menor insubmissão ou deslealdade “vão de vela”.
É política à portuguesa de alguns portugueses: se me não arranjarem um tacho, arranjem-me um penacho, que, pelo menos, já dá para ficar emproado.
Relativamente às listas das legislativas também há coisas interessantes. Manuela Ferreira Leite não pode mais ser levada a sério, não pode mais transportar consigo a imagem de rigor, de transparência, de sentido de estado, depois de algumas afirmações e tomadas de posição de que é autora. Depois de meter nas suas listas indivíduos com os crimes cometidos que cometeram, como é o caso de António Preto – jornalistas conceituados como Mário Crespo e Ricardo Costa escrevem-no com todas as letras e ninguém os chamou à justiça por isso – e afirmar, justificando a sua decisão, que nenhum dos crimes foi cometido no exercício de actividade política, é pura e simplesmente inacreditável. Para mim, pelo menos. Então, um deputado pode sê-lo ainda que tenha cometido os mais graves crimes, desde que não tenham sido no exercício de uma actividade política? Bom, eu sugeria à doutora Ferreira Leite que procurasse nas cadeias, que, entre a enorme comunidade detida, sempre lá haveria de encontrar alguns que satisfizessem os seus requisitos, provavelmente com “menos culpas no cartório” do que o seu grande amigo Preto. O problema está no ser ou não ser amigo, que tem muito pouco a ver com competência, com seriedade.
Conhecidos estes factos, interrogo-me como é que Aguiar Branco tem a desfaçatez, a falta de pudor de afirmar que “o governo, em muitas áreas está sob suspeita”? Não seria mais sensato, antes de falar, olhar primeiro para o que se passa em sua “casa”?!
Já agora, mais uma, reveladora do baixo nível de alguns políticos. O Correio da Manhã, de Verão, tem uma pequena coluna “Freud ao sol…” em que, diariamente, apresenta seis perguntas, sempre as mesmas, a uma determinada pessoa, todas mais ou menos conhecidas. Na edição desta última segunda-feira, à pergunta “Está desacompanhado na praia e quer ir à água. Cava um buraco para esconder a carteira ou confia na honestidade dos outros?”, o presidente da Juventude Social-Democrata, Pedro Rodrigues, respondeu: “Olho em redor para me certificar que não está por perto o engenheiro Sócrates e se assim for vou descansado”. No seu partido é capaz de ir longe, o moço. Agora, ele teria dado um tiro muito mais certeiro se dissesse que se iria certificar se não estaria por ali o seu companheiro Preto. Enfim, isto dos políticos é calinada sobre calinada.
Curioso, também, é atentar nas palavras de Pacheco Pereira, sempre feroz e implacável para com os seus inimigos, nomeadamente companheiros do seu partido, responsável por divisões várias, apelando ao esquecimento dos erros recentes do PSD, já que “é o país que está primeiro”, isto é, o dianho do homem primeiro ajuda a tirar o “tacho” a todos aqueles com que ele ou a chefe não simpatizam, de seguida apela à união para derrotar Sócrates “nem que seja apenas para inverter algumas políticas”. Este Pereira não dá peras mas tem lata.
Estão-se a acabar as festas por tudo quanto é igreja ou capela, vêm aí as festas e festinhas dos políticos. Ponha-se a jeito e vai ver quantos beijinhos, abraços e apertos de mão vai levar. Bom, se lhe der jeito ou gostar de andar nessas confusões, lembre-se da gripe suína…perdão, do vírus H1N1, gripe A ou lá o que quiser chamar-lhe e não se esqueça de pôr a máscara, ainda que seja de carnaval, porque as semelhanças vão ser muitas e usar luvas. Nessa gente tão nómada, não há que confiar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Padres na política

Aqui há uns anos atrás, não muitos, entrei numa igreja católica de uma cidade satélite do Porto, quando um sacerdote proferia a homilia da missa que celebrava. Mais pela voz do que pelo físico, já que me encontrava relativamente distante e a igreja estava pouco iluminada, como convém, para se tornar mais convidativa à meditação e à atenção da palavra que normalmente afirmam ser a de Deus, reconheci de imediato o sacerdote. Era um amigo de há muitos anos, reconhecido na diocese de Lamego pelos seus dotes oratórios, daí ser frequentemente convidado para pregar os sermões das missas festivas que se realizavam nas diversas igrejas e capelas da região. Já não prega mais porque não está entre nós. Sabia da sua concordância e defesa das ideias de Salazar, aliás à semelhança de uma grande parte dos seus companheiros padres, sobretudo os que paroquiavam os meios rurais mais pobres. Aliás, à época, tinham o exemplo no próprio Cardeal Cerejeira. Padres, que combatessem a doutrina de Salazar, existiam alguns, entre os quais avultava o Bispo D. António Ferreira Gomes. Não devemos esquecer que se deve muito ao clero, ao nível da educação, da instrução, da acção social, mas também se lhe deve muito na ajuda à manutenção do obscurantismo político em que vivemos durante décadas. Alguns padres católicos eram autênticos suportes e propagandistas das ideias do regime vigente. Conheci e tenho e tive amigos – alguns já partiram – uns que defendiam o Estado Novo, outros que o combatiam conforme podiam. Sempre tiveram no púlpito, um palco privilegiado, para difundir as suas ideias, que muitas vezes, pouco tinham a ver com a palavra de Deus e um público crente, cheio de fé, com a certeza que o sacerdote era o representante de Deus na Terra e por isso a sua palavra só poderia ser sábia, só poderia indicar o caminho correcto. Não é por acaso que, ainda hoje, todos os políticos, procuram ter relações amistosas com o clero, ainda que sejam ateus, agnósticos ou perfilhem qualquer outra religião que não a católica.
Bom, voltando ao referido sacerdote que encontrei, ele fazia uma apologia, o mais explícita possível, de toda a doutrina de Salazar, atacando veementemente, com uma virulência inusitada, praticamente todas as ideias que nasceram e se começaram a praticar após a Revolução de Abril, apontando a esta mesma Revolução todas as maleitas que sempre existem, seja qual for o regime político em que vivemos. Estávamos já nos primeiros anos deste século XXI. Uma grande parte das pessoas mostrava cara de espanto, com semelhante oratória, bem construída, o que revelava que ele estava na posse de todos os seus dotes que o fizeram conhecido e reconhecido no seio dos seus pares e dos fiéis, embora outras talvez dessem a sua concordância. De qualquer forma, fiquei impressionado, não pelas suas ideias, das quais discordava, mas respeitava, mas porque ali não era o sítio nem o momento para tamanho despautério político.
Hesitei em esperar pelo fim para cumprimentar o octogenário prelado. Sabia que, dada a minha frontalidade, dificilmente o nosso contacto se faria sem eu me pronunciar relativamente à homilia. Pensei então que mais valeria não proporcionar qualquer conflito que pudesse beliscar as relações amistosas que sempre mantivemos e fui-me embora. Nunca mais o vi. Passados uns meses faleceu.
Lembrei-me deste episódio, a propósito de ver as candidaturas de alguns padres católicos aos dois actos eleitorais que aí vêm. Obviamente que não é nada de inédito nem tais candidaturas me provocam qualquer repulsa, não obstante muitos padres católicos destinarem muitíssimo mais tempo a outras actividades do que àquela que os levou a optar pelo Sacramento da Ordem, que às vezes mal se nota. O que me choca, de facto, é que muitos padres se servem do púlpito para fazerem a sua campanha política. Aliás, isso é notório até em vários que não sendo candidatos, fazem campanha pelos candidatos ou partidos que apoiam. Alguns, a acreditar no que se ouve, se não chegam, dentro da igreja, a indicar de forma explícita, onde hão-de pôr a cruzinha nos boletins de voto, fazem-no de forma implícita ou vão a casa dos paroquianos.
É perfeitamente aceitável que intervenham activamente ou não na política, que tenham as suas preferências, mas que se sirvam do altar para propaganda política é absolutamente condenável, aliás, como a qualquer outro indivíduo, patrão ou chefe, fazê-lo no seu lugar de trabalho, tentando influenciar os seus subordinados, ou a qualquer dirigente na instituição que dirige.
Bem sei que a doutrina religiosa muitas vezes se entrelaça, se confunde com doutrina política. Aí não há nada a fazer. Os clérigos não vão deixar de pregar, de espalhar a doutrina da Igreja, só porque há segmentos políticos que defendem as mesmas ideias. Dou-lhe um exemplo: eu aceito perfeitamente que um sacerdote, mesmo em altura de campanha para descriminalizar o aborto, se pronunciasse, na Igreja, contra o mesmo aborto. Estava a defender a doutrina da Igreja, por mais que concordemos com ela ou não. Mas pregar a doutrina é muito diferente de fazer campanha eleitoral, em proveito próprio ou de outrem. A todos se exige ética, mas – não será injustificado afirmá-lo - com maior razão, a um padre.