terça-feira, 24 de maio de 2011

Que o domingo passe a ser ao sábado

Os dirigentes políticos já nos habituaram a mandar pela boca fora algumas tiradas, umas sem pés nem cabeça, mas porque lhes parece que poderão produzir o aconchego de mais uns votos, aí vão elas; outras que até teriam algum sentido e seria bom que se concretizassem, mas porque implicam audácia, algum risco, acabam por ficar para as calendas. Poderíamos aqui enumerar várias destas últimas que chegam a andar décadas nas bocas dos políticos, em épocas de eleições e nunca passam disso mesmo: promessas. Como já não tenho muita pachorra para perder muito tempo com esta gentalha de beijinhos, abraços e palmadinhas nas costas sazonais, quero apenas referir-me à ideia, que também não é inédita, de alterar os feriados, encostando-os aos domingos. Isto em nome da produtividade, dizem os “sábios”. Parece que não sabem que não é por aí que passa a produtividade. Não é por falta de dias suficientes de trabalho. Ela passa essencialmente por dois aspectos: salários baixos e falta de empenho de muitos dos nossos trabalhadores que agem como se a empresa ou a instituição onde operam, não lhes digam mais respeito que não seja a obrigação de lhes pagar ao fim do mês, aquilo que produziram muito abaixo do que deveriam. Vejamos como os mesmos trabalhadores que cá não produzem, são apontados como exemplo no estrangeiro. Sobre isso é que os políticos se devem debruçar.
Bom, mas o que eu queria dizer é que não concordo minimamente que se alterem os dias de comemoração dos feriados. Não acho graça nenhuma comemorar o 25 de Abril no dia 23, 24, 26 ou 27,o 5 de Outubro, o primeiro de Maio, etc., em qualquer outro dia que não seja o real. Se alguém entende que alterar é que está certo, em nome da produtividade, então eu dou uma sugestão que rende muito mais: passem o domingo para o sábado. Ao actual domingo chamem-lhe primeira feira e vejam só que teremos mais 52 dias de trabalho no ano. Que tal? Gostam da ideia. Tenham juízo e pensem em coisas mais sérias que as há e muitas e deixem-se de entreter o Zé.
“A política é a arte de se servir dos homens fazendo-os crer que os serve a eles”.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Justiça

A forma como funciona a nossa Justiça, e digo nossa, porque se não sei muito dela, sei menos da de outros países e é realmente a que me interessa, na simples condição de cidadão comum que procura estar a par do que se passa à sua volta, ainda que de forma pouco técnica, pouco científica.
Todos os actos que manifestamente tenham a ver com os cidadãos, em geral, sejam políticos, administrativos ou outros, na medida em que têm direitos e deveres, devem ser de fácil compreensão para qualquer um desses mesmos cidadãos, independentemente do seu grau de literacia. Quando me refiro a compreensão, quero dizer que os actos ou decisões não choquem com a inteligência, com o raciocínio, com o pensamento.
Poderia aqui falar da incomensurável legislação que existe, alguma que se contradiz, muita outra de difícil interpretação, mesmo para aqueles que são da área legislativa, de tal modo que, frequentemente, encontramos discrepâncias enormes na interpretação de leis, por parte de legisladores, aqueles que têm por obrigação de aplicá-las e os que têm obrigação de as cumprir.
Poderia apresentar aqui milhentos exemplos. Quem estiver atento ao que os órgãos de comunicação social veiculam todos os dias, dá-se conta disso mesmo. Curiosamente, no que diz respeito à Justiça, as diferenças de interpretação normalmente beneficiam os poderosos, seja através de sentenças proferidas com base na interpretação mais favorável aos presumíveis criminosos (alguns mais autênticos do que presumíveis) ou do arrastar da sentença até à prescrição.
Poderia falar aqui de inúmeros casos concretos passados com a justiça, que chocam todos aqueles que não compreendem tantos actos que, por omissão, por interpretação facciosa de leis, por incompetência, por arrastar do tempo até à prescrição, por existência de leis construídas à medida dos interesses dos poderosos, mas não vale a pena referi-los porque toda a gente conhece, senão mais, pelo menos aqueles que despertam maior interesse dos media.
Enoja-me ver e ouvir alguns, cujos crimes estão mais do que comprovados, através de escutas e de outros meios de prova, comportarem-se, quando a justiça, embora os não absolva, por qualquer impedimento da lei, por negligência, por incompetência dos seus actores, também os não pode condenar, dizia eu, enoja-me ouvi-los e terem um comportamento de vitória, quase de heróis, quase a transformarem-se em vítimas, chegando um ou outro mesmo à falta de pudor de declararem que a justiça não falhou. Pois falhou e rotundamente. Não falha normalmente é para punir os mais frágeis da sociedade. Pune facilmente o que rouba fruta, batatas ou hortaliça para matar a fome, mas manda em paz ou arrasta até à dita prescrição o que desvia milhões. Ou então há-de encontrar alguma alínea na lei que permita interpretar que o julgamento ou a sentença são nulas.
Não, por mais politicamente incorrecto que seja, a verdade nua e crua é esta: não podemos confiar na nossa justiça.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O estado da Nação

Meu amigo, é indesmentível que, em Portugal, infelizmente, à semelhança de muitos outros países no mundo, vivemos tempos complicados, diria mesmo, que vivemos dias negros. Claro, que há por esse mundo fora, situações altamente dramáticas em que milhões de pessoas morrem de fome e sem qualquer acesso à saúde. Poderíamos dizer que, comparados com esses, somos uns felizardos. Obviamente que não pretendemos tais comparações, porque muitos de nós merecem muito mais e melhor do que o que têm. Atrevo-me a sublinhar muitos de nós porque, efectivamente, há muitos portugueses que não merecem minimamente aquilo que têm, que é fruto dos impostos de quem trabalha e que não fazem qualquer esforço para trabalhar – a muitos, o trabalho não faltaria, quisessem eles – e ainda se dão ao luxo de gastar o dinheiro sem estabelecer quaisquer prioridades aceitáveis, gastando-o onde menos seria expectável que o fizessem. Quem conhece o país real, não apenas através das leituras ou qualquer outro tipo de informação que chega aos gabinetes, mas pela sua presença na rua, nos estabelecimentos comerciais, nos transportes e observa atentamente, através dos olhos e dos ouvidos, com verdadeiro espírito de conhecer em que mundo se encontra, sabe que é enorme o número de parasitas, de mandriões, de vigaristas, de criminosos que andam por aí a consumir as nossas depauperadas finanças, sem produzirem algo, nem sequer cultivar os seus quintais, que alguns possuem.
Por muitas culpas que os sucessivos governos e os políticos que se exibem pelos parlamentos tenham relativamente a esta crise e têm, com tanto cidadão a não produzir, a arranjar as mais diversas vigarices, entre as quais socorrer-se do divórcio, continuando embora a viver juntos como sempre viveram e até a fazer filhos, para receber subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, para fugir ao fisco, para beneficiar de taxas moderadoras, etc., etc. como pode este país progredir, desenvolver.
É, normalmente, esta gente que não quer fazer nada, que mais protesta, que mais se queixa. É óbvio que o que recebem não dá para muito, mas eles preferem o pouco e nada fazerem, do que um pouco mais, produzindo algo.
Há ainda aqueles que trabalham e recebem por isso, mas fazem-no clandestinamente – embora à vista de toda a gente, parece que menos dos que têm obrigação de fiscalizar e não o fazem devidamente, o que também nos pode levar a inclui-los no rol dos parasitas – para obterem apoios da Segurança Social e de outras entidades.
Se juntarmos a toda esta gente a viver da fraude, os que têm reformas milionárias, algumas duplas e triplas, os que se alimentam da corrupção, da exploração dos aflitos, através da agiotagem, temos dificuldade em acreditar que este nosso país, acabado de se submeter às ordens do FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, para se financiar e procurar sair da crise, tenha sucesso.
Temos que, urgentemente, apostar forte na educação, que quase já se não faz nem nos lares nem nas escolas, para criarmos novas gerações que saibam o que é a cidadania, que privilegiem a honestidade, a verdade, o trabalho, que combata o chicoespertismo, mas que também tenham alguma capacidade de sacrifício, que não esperem que tudo lhes é devido, sem esforço. Só assim poderemos aspirar ao sucesso.

terça-feira, 22 de março de 2011

De Portugal para o Brasil...com afecto

O texto de hoje foge um pouco dos temas a que, habitualmente me reporto. A vida, em cada momento que vivemos, se os vivermos atentamente, é uma autêntica escola que nos proporciona constantemente novas aprendizagens, nos leva a mudar de opinião, – só os burros é que não mudam – a alterar comportamentos, a ver as pessoas e o mundo de forma diferente, a conhecer melhor os humanos. Tal conhecimento permite-nos observar com mais acerto onde está a hipocrisia ou a franqueza, a gratidão ou a ingratidão, a lealdade ou a deslealdade, a verdade ou a mentira, a justiça ou a injustiça, a bondade ou a maldade, a humildade ou a arrogância, a competência ou a incompetência, a vaidade ou a simplicidade, o mérito ou o demérito, a valentia ou a cobardia, o altruísmo ou o egoísmo. Concluímos, assim, sem qualquer espécie de dificuldade e sem necessidade de uma inteligência acima da média, que vivemos num mundo de tal forma desinteressante, de pernas para o ar, onde sai vitorioso tudo o que é negação daqueles valores que deveriam ser universais e pelos quais, infelizmente, poucos se regem.
Entre muitas outras coisas que os nossos sentidos recolhem e o nosso cérebro descodifica, a minha sensibilidade, a minha inteligência ficam feridas com determinadas homenagens, mais abrilhantadas umas, mais singelas outras, expressas apenas em mais ou menos elaboradas, mais ou menos extensas, peças literárias.
Porque me dou conta de tudo isto, porque não gosto de reprimir os meus sentimentos, porque me repugna a mediocridade em que tantos se encontram situados, mas tudo fazem por aparecerem num qualquer periclitante pedestal; ainda porque é melhor não deixarmos para mais tarde o que é nosso dever ou gosto fazer, porque podemos correr o risco de amanhã ser tarde demais, propus-me trazer à estampa uma singela homenagem a quem merece muito mais do que umas humildes, mas bem sinceras palavras. Ainda assim, corro o risco, dada a sua modéstia, a sua simplicidade, a sua humildade, de lhe provocar algum mal-estar na hora de ter de publicar este texto no seu “Pelourinho”, que ele se apraz publicar assiduamente e onde não se cansa de homenagear os seus “torrões” predilectos, Nespereira, Vilar de Arca e Guisande, bem como seus familiares, seus inúmeros amigos e diversas instituições da sua – e nossa – sempre saudosa pátria.
Já percebeu que se trata do Nelson Valente. Em nome daquilo que acertámos quando me convidou a colaborar com o “Pelourinho”, que foi publicar os meus textos, fosse qual fosse o conteúdo e não lhes alterar a ortografia, sei que ele vai cumprir.
Algumas homenagens são mais uma espécie de vassalagem ao poder económico do que homenagem ao mérito e às virtudes. São mais um exercício de hipocrisia do que a demonstração sincera de reconhecimento, até porque muitas vezes nem existe nada ou quase nada para reconhecer. Quando se potenciam exageradamente os ínfimos méritos de uns e se ignoram os méritos de outros, trata-se, no fundo, de apostar na mediocridade e praticar a injustiça.
Desde 1968, estava eu no final do terceiro ano de cumprimento do serviço militar, que comecei a conviver, com a assiduidade que a separação por um oceano permite, com o Nelson Valente. Logo nesse ano ele me demonstrou o seu altruísmo, quando, vítima de um acidente de automóvel, fracturei uma clavícula e, não havendo as condições de hoje, ele, incansavelmente, estando de férias em Nespereira, me levou em busca de socorro. Daí para cá foram inúmeras as provas de carinho que me proporcionou, seja em Portugal, seja no Brasil, transportando-me, recebendo-me em sua casa, etc. Seria injusto olvidar também, aqui e agora, o carinho que ele manifestara, pelas mais diversas formas, pelo meu pai.
Todavia, meu amigo que porventura me lê, se eu referisse aqui apenas a gratidão que lhe devo, isto poderia parecer não mais do que o mero pagamento de favores. Não, para mim, o Nelson Valente vale muitíssimo mais do que o carinho, a amizade que me tem dispensado ao longo de estas mais de quatro décadas. Quem com ele tem tido a felicidade de conviver sabe das imensas virtudes que o exornam: altruísmo, benemerência, lealdade, frontalidade e muitas outras. Aqueles que com ele não têm tido a felicidade de privar, mas têm tido a oportunidade de ler o jornalzinho que ele carinhosamente publica e generosa e prodigamente distribui, verificam, sem grande esforço intelectual, o amor que ele dedica aos familiares, a sã amizade que distribui, o carinho e a saudade com que fala das suas terras de eleição já referidas: Nespereira, Vilar de Arca, Guisande; o carinho e a benemerência para com várias das associações nespereirenses; a motivação que procura estimular para que outros lhe sigam o exemplo. Tudo feito com a maior discrição, como é próprio das almas de eleição.
Observando tanta “parra”, tanta propaganda, relativamente a outros compatriotas, na terrinha ou na diáspora, apetece-me mandar calar as trombetas que festejam por feitos nulos e mandar seguir o exemplo de Nelson Valente.
Haveria muito que dizer sobre o que sei do seu currículo e de muito mais que não sei, mas aí sim, o meu amigo poderia arrogar o direito de não publicar por falta de espaço.
Por aqui me fico, com a consciência de que isto não é nada para o muito que ele merece.
Obrigado, grande amigo, pelo seu exemplo, pela sua amizade.


Texto escrito para o jornal "Pelourinho"

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cavaco Silva...Chefe de Estado, do Governo ou líder da oposição

Não gosto de Cavaco Silva. Ainda há pouco tempo o escrevi. Apesar de estar já a entrar – se é que não entrei - na chamada provecta idade, sou possuidor de boa memória, de forma que recordo perfeitamente o que foi o consulado de Cavaco, enquanto primeiro-ministro, como me lembro, obviamente, de algumas trapalhadas feitas lá por Belém, no seu primeiro mandato e da sua arrogância e falta de respeito pelos eleitores, reveladas através da negação de esclarecimentos nos debates da última pugna eleitoral. A memória, de facto, impede-me de simpatizar com ele, mas poderia, eventualmente, esperar-se que um dia se corrigisse e me levasse a mudar de opinião. Antes pelo contrário. Cada vez se acentua mais a minha antipatia por aquele que, mesmo não se gostando dele, deveria ser considerado o presidente de todos os portugueses. Na sua tomada de posse, ele revelou à saciedade que não o é.
Cavaco Silva gostaria de ser um Presidente da República que fosse ao mesmo tempo chefe do governo. Gostaria do poder total. Os que têm memória lembram-se do seu autoritarismo. Aliás, aqui não difere muito de José Sócrates. O seu discurso pareceu, ao mesmo tempo, o de alguém que vai ser empossado como primeiro-ministro, pois, como sempre, ele entende que o seu diagnóstico é o acertado e conhece as respostas adequadas e, por outro lado, o discurso de um líder da oposição. Um Presidente da República que se coloca nesta posição facciosa não é, seguramente, o Presidente de todos os portugueses.
Porque não acredito que Cavaco Silva sofra de amnésia – quando lhe convém, talvez faça parecer – lembra-se do seu passado mais longínquo de primeiro-ministro e do mais recente, o seu primeiro mandato como Chefe de Estado. E porque eu tenho essa memória, o seu discurso só me pode levar a concluir que se trata de uma pessoa sem pudor, hipócrita, demagogo, faccioso, cobarde. No fundo, Cavaco Silva é um político, como a maioria dos políticos: em primeiro lugar o seu interesse pessoal. Se assim não fosse, porque razão não disse o que agora disse, antes das eleições?! Por cobardia, porque temia perder votos. E esqueceu - facciosamente? - que a nossa crise se deve, em grande medida, à crise internacional, embora todos o saibamos que não apenas graças a ela?!
O Chefe de Estado quase roçou o apelo à insurreição: esqueceu-se da sua manifesta hostilidade a manifestações, reprimindo-as, patrocinando cargas policiais.
Falou de aposta nos sectores de bens e serviços. Que fez Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro? Com o dinheiro que vinha às “carradas” da então CEE, construiu estradas como o IP3, o IP5 e outras vias, que, de mal construídas, foram, e algumas ainda são, autênticos cemitérios e outras obras que consumiram vultuosas verbas, algumas em parcerias público-privadas, que ele agora contesta, privilegiando o alcatrão e o betão.
Que fez Cavaco Silva, pela Educação, pela Saúde, pela Cultura – recordem o(s) episódio(s) relacionados com Saramago?
Anda a pregar um melhor aproveitamento do mar e dos campos. Quem subsidiou o abate de barcos e o abandono da agricultura? Cavaco, pois claro.
Se a manifestação da “geração à rasca” tiver incidentes graves, em certa medida se poderá imputar alguma responsabilidade às palavras de quem, outrora, não hesitaria em reprimir violentamente.
Por esta análise e pelo muito mais que poderia dizer, entendo que o discurso de Cavaco Silva foi muito pouco sério.
Fico-me com este provérbio persa: “Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar e falar quando é preciso calar-se!”

domingo, 15 de agosto de 2010

Algumas ideias soltas...ou talvez não

- Há muitos e muitos anos, desempenhando as funções de Comandante de um Corpo de Bombeiros, afirmava publicamente, nomeadamente para órgãos de comunicação social e à altamente deficitária brigada de fogo posto da PJ do Porto, que a maioria dos incêndios florestais tinha origem criminosa. Alicerçava a minha convicção, tendo em conta os locais e as horas a que os incêndios deflagravam. O politicamente correcto era atribuir tais ignições a outros factores. O poder e mesmo as hierarquias dos bombeiros sempre procuraram contrariar a tese do fogo posto, apesar de todas as evidências.
Enquanto dirigente da Liga dos Bombeiros Portugueses e Inspector, mantive o mesmo discurso do fogo criminoso. Poucos queriam aceitar isso, talvez porque não pretendessem que os portugueses ficassem com o rótulo de incendiários. Eu também não o pretendia, mas enterrar a cabeça na areia, fingir que Portugal é um país só de “bons rapazes” é contribuir para que os criminosos continuem à solta a transformar este país em cinzas.
Bom, onde eu quero chegar é ao seguinte: felizmente, embora “tarde e a más horas”, toda a gente já aceita, a começar pelo Ministro da Administração Interna, que a maioria dos incêndios florestais – até já atiram para o ar com 90% - é de origem criminosa.
- Tal como vem sendo hábito de há muitos anos, quando os incêndios florestais preenchem a agenda mediática, não faltam vozes do poder a defender que agora, sim, é que se vai apostar na verdadeira prevenção. Já conhecemos a música de cor. As promessas repetem-se, sejam quais forem os detentores do poder, e tudo se mantém. Ao contrário da prevenção, com limpeza das matas – anda aí tanta gente a comer os nossos impostos e sem fazer nada – construção de aceiros, pontos de água, etc., aposta-se em mais e mais meios aéreos, isto é no combate. Se as promessas se tivessem vindo a cumprir, o normal seria cada vez ser menos necessários tantos aviões e helicópteros.
Para quem estiver minimamente por dentro da problemática dos incêndios florestais e andar atento ao que se passa, ao que se diz e ao que se escreve, tem de chegar a esta conclusão: se em alguns anos a área ardida é menor do que em outros, é sobretudo devido às condições climatéricas ou porque os incendiários andam mais calmos ou menos interessados que arda. Se os resultados se devessem a qualquer estratégia de prevenção e combate, o normal seria que se melhorasse de ano para ano. O ano passado não foi mau, mas veja-se a tragédia que já vai este ano, com muito Verão pela frente, ainda.
E não se esqueça de reflectir no facto de há vinte, vinte e cinco anos termos em combate, meia ou uma dúzia de helicópteros ligeiros, com horas contadas. Os bombeiros fizeram -e continuam a fazer, no fundo, apesar de só terem louvores de circunstância, o resto são punhaladas e desprezo – autênticos milagres. Para se fazerem comparações é necessário jogar com todos os dados.
Há ainda outro problema: é que apesar de toda a abnegação dos bombeiros, que sacrificam a própria vida, falta-lhes, em muitos casos, material de combate em número e em boas condições de operacionalidade. Os últimos governantes, em vez de entregarem as viaturas de combate aos incêndios a quem deviam, isto é, aos bombeiros, entregam-nas à GNR, que pelos vistos, não zela, como devia, pela segurança dos cidadãos, prevenindo e combatendo o crime, mas está a transformar-se na força, por excelência, de combate a incêndios. Isto é uma aberração inconcebível.
- Enquanto não alterarem essa “criminosa” ideia de ter de se solicitar a presença de um técnico, a léguas de distância, ou pedir autorização para usar um contra-fogo, vão continuar a arder grandes áreas de floresta, por essa única razão. A experiência, feita de muitos combates em terrenos de declives acentuados, inóspitos, diz-me e diz a muitos bombeiros que um contra-fogo, imensas vezes, ou é feito naquele momento ou já não resulta. Conceber uma legislação dessas é de quem não tem “miolos”. Só muita incompetência pode permitir tal monstruosidade. Já o afirmei por diversas vezes: se estivesse a comandar as operações num incêndio, se entendesse que em determinado momento a melhor solução, talvez a única, era um contra-fogo, executava-o imediatamente. Depois punissem-me.
- O meu amigo Jaime Soares, Comandante de Bombeiros de Vila Nova de Poiares, Presidente da Câmara do mesmo concelho, Vice-presidente da Associação Nacional de Municípios, Presidente da Mesa de Congressos da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando se trata de matéria de bombeiros vê-se aflito para saber exactamente de que lado há-de estar. Tanta experiência, aliada à inteligência, dão-lhe, todavia, a capacidade de saber, como ninguém, quando é preciso, “dar uma no cravo e outra na ferradura” e muitos nem se apercebem.
Ele sabe que muitas Câmaras não dão o apoio necessário, sobretudo em situações de incêndios florestais, aos bombeiros. Isso é uma verdade que facilmente se comprova. Jaime Soares sabe, eu sei, você sabe que muitos bombeiros teriam já morrido à míngua, se estivessem à espera do apoio logístico das autarquias. O que lhes vale, muitas vezes, é o apoio das suas próprias estruturas, dos populares, de estabelecimentos de restauração, de pequenas e grandes superfícies, que lhes fornecem água, leite, pão e outros produtos alimentares.
Poderia aqui lembrar também as inúmeras Câmaras que não estão disponíveis para criar as Equipas de Intervenção Permanente, o que revela a pouca importância que dão ao socorro e o pouco respeito pelos Corpos de Bombeiros
Quanto aos Comandantes Municipais estou com ele. As leis são para cumprir e nesse aspecto há muitas Câmaras em infracção, mas não são necessários. Para conflituar, para arranjar mais confusões na coordenação, para ser mais um problema do que uma solução, já bastam os GIPS da GNR, em má hora criados, retirando homens aonde eles deveriam estar e dando-lhes meios que deveriam estar nos Corpos de Bombeiros.
- Não consegui deixar de esboçar um sorriso, embora o assunto seja demasiado sério para poder dar vontade de rir, ao ouvir o Ministro da Agricultura sugerir que os terrenos abandonados deveriam passar para a posse do Estado. Para quê? Para continuarem abandonados?! Alguém reconhece ao Estado um bom exemplo nessa matéria?
- Ontem, 14 de Agosto, vi, no “sítio” da ANPC, na descrição de um incêndio em Cabril – Lindoso – PNPG, com 53 bombeiros, entre outras forças, ter como comandante das operações de socorro o Cabo Torres do GIPS da GNR. Ao que isto chegou!
- Os responsáveis pelas mortes dos nossos heróis bombeiros, que hão-de certamente estar num sítio mais justo, não são apenas aqueles que incendeiam as matas, mas também muitos dos que se sentam nas diversas cadeiras dos diversos poderes.

sábado, 7 de agosto de 2010

O orgulho

Há por aí muitos indígenas que, frequentemente, afirmam o orgulho que sentem pelos inúmeros aspectos positivos que descobrem nesta nossa freguesia de Nespereira, do território cinfanense e pelas incontáveis virtudes que também ousam descortinar em alguns conterrâneos, virtudes inexistentes ou altamente inflacionadas. Só inconfessáveis desígnios, que os mais atentos facilmente percebem, justificam semelhante verborreia. São pessoas que não encontrando em si muito de que se orgulhar, encontram nisso a forma de revelar, ilegitimamente, embora, o seu orgulho. E cai sempre bem dizer o melhor possível da nossa terra e das suas gentes e dá alguns votos a quem já não conseguir sobreviver com vaidosa visibilidade, “à tona”, digamos assim, sem eles.
O que os meus sentidos me mostram, salvo raras excepções, são, quando muito, virtualidades, mais do que realidades, que parece nunca, ou só muito tarde, se concretizarem.
Tenho aqui um terreno fértil para espraiar as minhas ideias, mas não quero fugir muito daquilo que me motivou a fazer esta reflexão: exactamente a expressão orgulho, que já no início do texto colocara em itálico.
Quando as pessoas exaltam, por exemplo, o orgulho bairrista, estão a deturpar o significado da expressão que é um sentimento que tem a ver exclusivamente com o próprio indivíduo. O orgulho é “o elevado conceito que alguém tem de si próprio”. Quando alguém se agarra ao orgulho bairrista ou mesmo nacional, das duas uma: ou não encontra em si próprio méritos que o faça sentir orgulho, como já referi atrás, ou, por vaidade aliada ao orgulho, considera que ele próprio é dotado de méritos que contribuem para que a terra ou a nação sejam reconhecidos. É a vaidade a sobressair do orgulho. Sentir orgulho pelos outros pode ser uma atitude muito bem vista, até altruísta, mas atenta contra o verdadeiro significado da palavra. Não tenho que sentir orgulho pelos méritos, pelas qualidades, pelos sucessos dos outros, devo, isso sim, comungar da sua felicidade.
Infelizmente, o que se vê muito, é a exaltação externa, pública, do orgulho, pelos feitos de outros, quando isso transporta benefício pessoal ou político, mas, mesmo assim, internamente, a inveja rói sem cessar.
Sem menosprezar o que de bom existe, nem aqueles que para isso tenham contribuído, antes pelo contrário, eu interrogo-me se, a chegar ao final do segundo lustro do século XXI, existe motivo para eu mostrar satisfação – se preferir leia para me sentir orgulhoso – se a nossa terra (a colocação dos diversos itens é aleatória, não reflecte qualquer índice de valor ou prioridade):
- não tem uma estrada nacional que nos leve e traga com segurança e com alguma rapidez;
- não tem saneamento básico, não obstante algumas infra-estruturas de razoáveis dimensões;
- não tem abastecimento de água domiciliária;
- não tem um Complexo Escolar e Desportivo;
- não tem uma Unidade de Saúde verdadeiramente digna desse nome;
- não tem um Posto de Correios;
- não tem um Posto de Autoridade Policial;
- não tem qualquer instalação hoteleira, uma simples residencial com meia dúzia de quartos, com quartos de banho privativos, como é óbvio que hoje aconteça;
- não tem uma verdadeira estrada que sirva Lourosa e Paradela;
- tem o Largo da Feira, requalificado vergonhosamente, complicando o acesso à parte norte e nascente, nomeadamente Bacelo e Granja, deixando lá um mamarracho inútil que é o coreto e colocando lá outro mamarracho que são as instalações sanitárias, ainda por cima sem funcionarem;
- tem o Rancho Folclórico a construir a sua sede e um museu, na Granja, sendo que não vai lá um autocarro e, na maior parte do percurso, nem dois carros ligeiros se cruzam;
- tem algumas associações que não têm um espaço, ainda que mínimo que seja, propriedade sua;
- tem os campos por cultivar e os montes e caminhos por limpar;
- tem imensa gente sem trabalhar, ao que se diz, a viver à custa dos impostos dos que trabalham ou já trabalharam;
- tem outra gente que recebe subsídio de desemprego ou Rendimento Social de Inserção e trabalham, não pagando impostos, nem ela nem aqueles para quem trabalha, obviamente;
- ninguém fiscaliza, porque é desagradável, incómodo;
- no lugar da Vista Alegre, desde há algumas dezenas de anos que as diversas Juntas de Freguesia têm dado terrenos (com que legitimidade?) para construção ( em reserva ecológica), em muitos casos para segunda habitação, que alguns vendem (ou casa ou terreno), sem que nenhum autarca tenha tido a ousadia de acabar com esse negócio. Como se isso fosse pouco, nem sequer nunca se preocuparam em fazer pelo menos um projecto de loteamento, feitas as diligências que tivessem de ser feitas, de modo a que as casas ficassem devidamente alinhadas e com acessos largos e fáceis. É ver a vergonha que lá está, num lugar em que a maioria das casas (algumas parecem mansões, pouco compatíveis com o facto de estarem construídas em terreno cedido gratuitamente) tem menos de quarenta anos, altura em que eu já alertava os autarcas de então.
Se alguns afirmassem publicamente as afirmações que autarcas lhes fizeram!... A quanto obrigam os votos!!! Pelo menos, à falta de independência, de coragem e, em alguns casos, até à falta de vergonha!
Já agora, festas e mais festas é que não faltam. E peditórios também. Com tanta festa, chego a não perceber onde está a crise.
Cá por mim, que quis ficar nesta terra por amor, que mantenho, e fazer algo por ela, ainda que em prejuízo de uma outra carreira para a qual sentia maior vocação, não sinto qualquer satisfação com isto. Se você acha que é nisto que deve ter orgulho, faça bom proveito.