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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Que Deus nos proteja!

Alguns dos temas que mais têm ocupado os meus momentos de reflexão, são a segurança – um grave problema cultural português – a hipocrisia, a ingratidão, a mediocridade.
Quanto à segurança, aquilo a que todos os dias assistimos, com perdas de vidas absolutamente injustificadas, perfeitamente evitáveis, demonstram plenamente que há um trabalho árduo a desenvolver nessa área, que terá de passar, forçosamente, pelas famílias, pelas escolas, pelas autarquias, pelas forças de protecção e socorro, pelas forças de segurança, enfim, por todos e cada um de nós. Cá por mim, tenho feito o que posso, nomeadamente através da escrita, mas sei que poderei fazer mais, desde que o desejem, proporcionando-me oportunidades para tal. Bom…”para bom entendedor…”. Fica-me a expectativa se haverá “bons entendedores”.
Através da proliferação e do fácil acesso aos mais variados órgãos de comunicação, de que não excluo a internet, chega-se à conclusão de que este “sítio” está cada vez mais hipócrita, mais ingrato, mais atrasado. Há por aí gente a emitir opiniões que se sustentam sobretudo no dizer o que a pode favorecer pessoalmente, bajulando, louvando o que não merece minimamente ser louvado, antes pelo contrário, fingindo ignorar acções de maior relevo. É a hipocrisia sem escrúpulos, é a sabujice nojenta, que provoca repulsa.
Fazem-se afirmações que nada têm a ver com a realidade. Temos a certeza, inclusive, que não dizem o que pensam, mas o que lhes convém, para agradar ou mesmo para dar satisfação ao “ amor com amor se paga”. É a bajulação recíproca. É preciso muito cuidado, pois, segundo George Chapman “os aduladores são tão parecidos com os amigos como os lobos com os cães”.
É óbvio que eu respeito inteiramente a diversidade de opiniões. Nem me imagino a ser de outra forma, mas uma coisa é a diferença de opiniões que cada um emite, outra é alguém afirmar coisas indefensáveis e, pior do que isso, em que ele próprio não acredita, mas que só a conveniência o leva a isso. É a hipocrisia com todo o seu esplendor. A hipocrisia é uma enfermidade extremamente vulgar que normalmente traz a si associada outra repugnante maleita que é a ingratidão.
Todos nós, uns mais do que outros, temos muito de ignorantes. Eu não me sinto nada mal por constatar a minha ignorância relativamente a uma imensidão de temas, mas procuro, sobretudo quando escrevo, porque é uma marca que ali fica, não o fazer sobre coisas de que não estou minimamente à-vontade. O que não significa que o não possa já ter feito, involuntariamente. Agora, há assuntos que, pura e simplesmente, não dependem de qualquer opinião. São o que são. Estou a lembrar-me, por exemplo, do que, pelos vistos se falou, e também escreveu, relativamente à possibilidade de uma federação das associações de Nespereira. Pura e simplesmente é um erro crasso, porque só podem existir federações de associações, clubes, sindicatos, etc., idênticos, que tenham os mesmos objectivos, como federação de bandas de música, de grupos folclóricos, de associações de bombeiros e por aí fora.
Isto não significa que não se possa discutir qualquer outra espécie de ligação entre as várias associações indígenas, só que federação não. Discutir sobre algo irrealizável é perda de tempo, ou, se preferir, tolice.
Já por diversas vezes referi, que, em determinados aspectos, muitos, aliás, se assiste à vitória da mediocridade. Na política, por exemplo, uma grande parte das pessoas que aí ocupam posições, de maior ou menor relevo, como são medíocres, oportunistas, ambiciosas, receiam as pessoas inteligentes, que pensam e dizem o que pensam, não olharam a meios para conquistar tais posições, como não olham para as defender, ainda que tenham que pisar quem quer que seja.
Porque os inteligentes, os pensadores que não vergam a espinha a troco de qualquer privilégio, que adoptam a verdade, a frontalidade como forma de relacionamento com os outros, sejam amigos ou não, não se permitem a essas “patifarias”, quem vence é a mediocridade. Talvez por isso, Ruy Barbosa escreveu: “Há tantos burros a mandar em homens inteligentes que, às vezes, penso que a burrice é um ciência”.

Os medíocres ficam com tal receio com a simples aparição de alguém com capacidade superior, de alguém com verticalidade que os possa ameaçar, que tudo fazem para não o deixar entrar no seu mundo e, se possível, mesmo abatê-lo. No fundo é o reconhecimento das suas limitações, de que o mais capaz faria facilmente aquilo que ele não consegue ou só o consegue com imensas dificuldades. Ao reconhecimento que as pessoas normais demonstram pelos mais capazes, opõe-se o silêncio ou a repulsa por parte dos medíocres.
Churchil disse: “A inteligência conquista inimigos, o talento assusta”.
Que Deus nos proteja!

António Salazar

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Para onde vai este país?

Em muitas, muitas centenas de peças escritas e faladas que publiquei, é naturalíssimo que repita temas, ideias, frases. É praticamente impossível que assim não aconteça.
Como há situações, gestos, procedimentos que se repetem, alguns que não gostaríamos de ver repetidos, nem deveriam ser, mas, infelizmente, o são, vezes sem conta, é inevitável que me repita, sem dizer exactamente as mesmas coisas, obviamente. Se há temas que tenho abordado com alguma frequência, um deles é o da mediocridade e já nem me atrevo a discernir, tal a sua amplitude, se é mediocridade de uma grande parte dos portugueses, se é do próprio país. Se a mediocridade de qualquer cidadão, qualquer que seja o seu estatuto, a sua função, é preocupante, muito mais o é quando nós temos a consciência que é ela que ocupa o poder, seja ele que poder for: nas autarquias, no parlamento, no governo, em suma na política, na justiça, na administração pública, nas empresas. Então a promiscuidade entre a política, a justiça, as empresas e a comunicação social, sem escrúpulos, nivelada muito por baixo, é assustadora.
Não obstante sermos bombardeados todos os dias com a crise económica, que tem de nos preocupar, pior do que essa mas que ajuda a consolidá-la, é a crise de valores, é a falta de escrúpulos, de educação, de civismo, que faz com que se roube, atente contra a dignidade, se procedam a assassínios de carácter sem que vejamos qualquer punição para os infractores. Enquanto não apearmos do poder, sobretudo do político, do judicial e da comunicação social, a mediocridade, não me parece que este país seja verdadeiramente viável. Se tenho algumas preocupações por mim, elas multiplicam-se pelos meus filhos e pelos meus netos.
Já aqui afirmei, creio que da última vez, que me não preocupa minimamente ser escutado, até porque nunca negarei, cara a cara, aquilo que disser nas costas, da mesma forma que nunca deixei de assinar tudo quanto publico. Considero abjecto tudo quanto é publicado sob anonimato, abomináveis todos quantos, muito do que dizem, o fazem de “face oculta”. Nunca o fiz nem nunca o faria. Ainda referentemente às escutas entendo que deverão ser efectuadas de acordo com a legislação vigente e servir para efeitos de investigação judicial, mantendo-se no segredo de justiça, seja qual for o estatuto de quem está a ser escutado, para evitar suspeições, pressões, julgamentos na praça pública. Todas as pessoas, sejam quem for, têm direito ao bom nome, até que sejam julgadas, condenadas com trânsito em julgado. O que nós vemos neste país medíocre é inúmeras pessoas a serem condenadas inevitavelmente para toda a vida, na rua, ainda que, mais tarde, os tribunais as venham a reconhecer como inocentes. E que dizer do sofrimento dos familiares desses “condenados”, nomeadamente, pais, maridos ou mulheres, filhos?! Quem conseguirá medir tamanho sofrimento, quando vêem, todos os dias, os nomes dos familiares escarrapachados nas páginas de jornais e revistas, abrindo noticiários de televisões e rádios, objecto de conversas nos cafés e repartições?! Será que os responsáveis por tamanha pouca-vergonha, por tão vil irresponsabilidade, sobretudo da justiça e comunicação social, pensam nisso, não têm família?!
Refiro-me aqui expressamente à justiça e à comunicação social pelo seu papel em todo este contexto. Claro que nem a uma nem a outra podemos atribuir os inúmeros e diversificados crimes que atravessam a sociedade portuguesa, nos prejudicam a todos e envergonham, mas não encontro, cá para mim, outros responsáveis, seja pelas fugas de informação, desprezando total e impunemente o segredo de justiça, seja pela publicação, muitas vezes não apenas do que consta das investigações, mas dando asas largas à imaginação, lançando suspeições sobre suspeições, cada um gerindo a informação de acordo com as suas preferências, sejam de que tipo for, provavelmente, até, de acordo com os seus interesses pessoais, de grupo ou mesmo materiais. Se é absolutamente imperdoável, pelo menos, segundo o meu ponto de vista e, creio que de qualquer cidadão dito normal, sem nenhuma preparação específica nessas matérias, mas que pensa, que se viole constantemente o segredo de justiça, sobretudo quando se trata de pessoas com algum ou muito relevo em qualquer área da vida nacional e a avidez doentia, mórbida mesmo, com que cada órgão de comunicação social procura escarafunchar tudo e a qualquer preço, para “vender” mais, todos os aspectos da vida dos visados, sem o menor respeito, já não digo piedade, nem por eles nem pelos seus familiares, muito mais grave é nós concluirmos, sem necessidade de se ser nem muito inteligente nem perspicaz, que as violações partem dos órgãos de justiça e não termos conhecimento que alguém seja responsabilizado por isso, nem tão pouco nos darmos conta de alguma preocupação nesse sentido.
Não aceito muito bem que a comunicação social não se debruce sobre esse problema grave para os cidadãos que é a violação do segredo de justiça, mas entendo-a, porque é do seu interesse que assim seja e é, naturalmente, ela que a fomenta, que, muito provavelmente, paga para que assim aconteça. Agora, diga-me, meu amigo, que confiança se pode ter numa justiça que não investiga, não julga, não pune os crimes que são cometidos dentro do seu próprio edifício e que, não só deixa sair aquilo que deveria estar em segredo de justiça, cá para fora, como o faz em timings acertados com as forças interessadas.
Com uma comunicação social, qual ave de rapina, que se lança com uma avidez nojenta sobre os despojos mais fétidos da nossa sociedade, tornando-os mais fétidos ainda, porque rentabilizam mais do que apregoar valores, virtudes; com uma justiça com operadores que vendem segredos e se vendem como prostitutos, é caso para os providos de fé irem rezando e os outros se entregarem a qualquer dos seus deuses, amuletos ou superstições, porque o problema é sério.
Está complicado viver neste país, mais paupérrimo em termos de valores do que de bens materiais e é caso para se começar a pensar se de aqui a alguns anos, não muitos, ainda seremos um país. Não estivéssemos integrados na União Europeia e já estaríamos com ou à beira de outra revolução. Não sei se para melhor ou para pior, mas com a experiência da bem-vinda chamada dos cravos, expurgando-lhe tudo o que teve de mau e que estamos a pagar, talvez se conseguisse apear do poder a mediocridade, para bem, não apenas de alguns, mas de todos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A vitória da mediocridade

Fico arrepiado cada vez que verifico que no meu país, na minha região – e isso acontece com frequência, infelizmente – se dá tanta importância a coisas medíocres, a pessoas medíocres. Fico arrepiado, fico confuso e dedico parte do meu tempo a reflectir sobre esse facto, e sempre esbarro na incerteza da justificação para tal realidade.
Não obstante saber que é típico dos portugueses, entre os quais me incluo, achar que o que é de fora é sempre melhor do que o nosso, não tenho dúvidas de que cada vez são em menor número os indivíduos de classe superior e em grande maioria, os medíocres. Não porque me considere um perfeccionista, não porque me considere demasiado exigente, rigoroso, longe disso, mesmo assim, parece-me que para alguém sobressair da mediocridade não pode limitar-se a cumprir aquilo a que qualquer simples mortal está obrigado, isto é, honesto, trabalhador, assíduo, pontual, solidário, cumpridor das leis. Quando eu vejo glorificar, tecer loas a pessoas que nem esses parâmetros cumprem, como poderia eu pensar de outra forma que não fosse a de que estamos num país e num tempo em que a mediocridade desfila triunfante.
Entre outras conclusões que me vão aportando à mente e que algumas vezes tanto se fazem como logo se desfazem como bolas de sabão, neste momento, parece-me de relacionar tal facto com a referida maioria de medíocres existente. Sendo eles, efectivamente, a maioria – já dizia Pierre Beaumarchais que “os medíocres e oportunistas vão a todo o lado” – é naturalíssimo que eles se protejam e dêem realce, destaque, aos da sua estirpe. Talvez a principal característica dos indivíduos medíocres é não conseguir reconhecer a superioridade dos outros. Mal vai ao mundo quando são os medíocres ou mesmo maus a servirem de exemplo, ignorando os bons. Tenho uma dúvida, aliás tenho muitas dúvidas, mas aquela a que agora me reporto é a seguinte: não sei se os espíritos medíocres realmente não conseguem reconhecer a superioridade dos outros, pelo simples facto de serem medíocres, ou porque não têm interesse nesse reconhecimento, precisamente para se tornar mais fácil a sua valorização pessoal e a dos seus iguais.
Alguns dos medíocres, não se lhes conhecendo nenhuma actividade digna de registo e não reconhecendo em si próprios o atributo de nada fazerem ou pouco e mal, têm a estultícia de aconselhar outros a fazer. Quem assim procede deve presumir, penso eu, que o que fazem é muito ou, pelo menos, muito importante, enquanto que aquilo que outros façam, mas não integre o seu lobby, por mais importante que seja, é desvalorizado. Falo conscientemente em lobby, porque acredito piamente que existe, se calhar um pouco inconscientemente, um lobby dos medíocres. Só assim é possível a mediocridade sair vencedora sobre a superioridade e ser praticamente ela a ocupar o poder.
É normal confundir-se pessoa medíocre com pessoa ordinária, insignificante. Efectivamente, é isso que, com frequência, se verifica, no entanto a minha reflexão tem mais a ver com o mérito, a competência, para o exercício de determinadas actividades do que propriamente a bondade ou maldade das pessoas. O que é que eu quero dizer com isto é o seguinte: pode haver pessoas sérias, trabalhadoras, solidárias, respeitadoras que eu considere medíocres no que respeita à capacidade, à competência, ou seja ao mérito para desempenhar certas funções, para assumir determinadas responsabilidades. Se de facto elas não têm essas aptidões, por muito boas pessoas que sejam, e como tal devem ser respeitadas, nunca deveriam ser chamadas a desempenhar tais tarefas, nem elas as deveriam aceitar e, muito menos, colocá-las num pedestal.
Há uma coisa muito pior que acontece com os medíocres, e aqui já não me reporto apenas aos que não têm aptidões, mas incluo os oportunistas, aqueles que de facto o são a toda a linha. Normalmente são velhacos, invejosos, mas também ambiciosos, e como não conseguem, pelos seus méritos, alcançar a superioridade de outros, na hipótese mais doce, menos maldosa, fazem tudo para que essoutros sejam ignorados, esquecidos, ou, na hipótese mais vil, caluniam. É a técnica do como não posso atingir a tua altura, rebaixo-te e já fico mais alto.
Só quem andar muito distraído ou não tiver por hábito reflectir sobre o comportamento das pessoas é que não se dá conta desta triste realidade.
No fundo o que está a dar e é por isso que muitos lutam, é a aparência. Fartamo-nos de constatar que o que se valoriza é aquilo que se parece e não aquilo que se é. Não sei se isto é exclusivo dos portugueses, se à escala global, mas por cá, é inegável que se valoriza com mais frequência a aparência do mérito do que o próprio mérito.
Veja, meu amigo, que há autarquias, que não obstante a generalidade dos cidadãos até poder ser positiva relativamente ao trabalho, à seriedade dos autarcas, se pensarmos bem, por falta de rasgo, de habilidade política, de risco controlado, em suma, de mérito, não estão muito mais desenvolvidas, mantendo-se deficitárias ao nível da saúde, da educação, da segurança, do ambiente, das acessibilidades, do lazer, do entretenimento. Mesmo com trabalhos considerados positivos, verifica-se nas autarquias, como se verifica no governo, parlamento, nos institutos, nas associações, que em muitos desses organismos só não se foi ou vai mais longe porque não há mérito em muitos dos seus dirigentes, que é como quem diz há muita mediocridade.
Tem dúvidas que assim é? Veja como, onde e em que condições são recrutados para serem nomeados ou sujeitos a eleições muitos dos indivíduos que povoam os organismos referidos e muitos outros que poderíamos aqui assinalar.
Bom, deixemos a mediocridade, que anda por aí de saltos altos, vestida de hipocrisia e de falas mansas, dando palmadinhas nas costas de uns e traindo outros, sorrateiramente, consoante as conveniências, para se mascarar de superioridade, que com ela jamais “sairemos da cepa torta” e vamos a outro assunto.
Afinal quem é que anda a ser escutado, é Belém ou S. Bento?
Queixava-se o inquilino de Belém de andar a ser escutado, mas, sabe-se agora, que desde há meses é o primeiro-ministro que está sob escuta nas suas conversas com Armando Vara. Não quererá a oposição acusá-lo de ter promovido tais escutas?
Embora me pareçam exageradas as escutas, atendendo aos fracos resultados que se têm obtido, é bom sabermos que tanto pode ser escutado o primeiro-ministro como o mais humilde cidadão. Pela minha parte, escutem-me à vontade. Para que ficássemos mais descansados só era necessário que a justiça fosse tão célere para os poderosos como para os humildes e que não fossem apenas estes a ocupar as prisões, mas também aqueles. Certamente, com tanta mediocridade – perdoe-me repetir o vocábulo – talvez não seja despicienda a conclusão de que apenas temos o país que merecemos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aversão aos políticos

Se eu tivesse chegado agora a Portugal e ignorasse qual o partido que ganhara as eleições legislativas, pelos discursos dos diversos líderes, quase poderia apostar que qualquer um deles tinha vencido. As afirmações de tais actores pretendem fazer-nos crer que, mesmo com seis, sete, nove ou dez por cento do eleitorado, as suas propostas terão de ser concretizadas. Então, onde cabem as propostas dos que obtiveram a confiança de quarenta por cento do eleitorado?! Isto faz-me uma certa confusão. Sempre entendi que, em democracia, tudo se deve discutir em liberdade, com respeito por todas as ideias, por mais inconcebíveis que pareçam, mas depois de discutidas e votadas, vingarão as da maioria, tenha ela a amplitude que tiver, que os vencidos deverão respeitar, sem embargo de continuar a lutar em sede própria e por meios legais e legítimos para que, mais cedo ou mais tarde, vençam as suas. É este o meu conceito de democracia. Infelizmente, quer nos meandros políticos, quer mesmo em instituições particulares, fazem-se votações, cujos resultados deveriam ser respeitados por vencedores e vencidos, mas que muitos destes passam a desrespeitar de imediato. Isso é demasiado frequente, quer a nível partidário, quer a nível associativo.
Já demonstrei até à saciedade que não morro de amores pela classe política, de um modo geral, mas procuro sempre ouvi-los, lê-los, interpretá-los, observar o seu comportamento dentro e fora da actividade política, ajuizá-los. É óbvio que não os meço a todos pela mesma bitola. Há políticos, de vários quadrantes, por quem tenho enorme respeito e consideração. Há, felizmente, políticos que encaram a acção política como um verdadeiro sentido de serviço à comunidade. È a forma que encontram de melhor exercer o seu dever de cidadania, numa entrega abnegada, desinteressada em prol dos cidadãos. São as excepções, poucas, infelizmente, que confirmam a regra.
É natural que o conceito que eu faço da classe política se alicerce sobretudo naqueles que conheço mais profundamente, que andam de partido em partido à procura de “tacho”, que usam a demagogia, a mentira, a calúnia sem o mínimo escrúpulo, que hoje dizem muito bem e aplaudem os mesmos actos das mesmas pessoas que antes condenavam, que são de uma hipocrisia, impostura, falta de ética, de coragem, porque não poucas vezes se socorrem dão anonimato, sempre em nome do mero interesse pessoal e desse pecado nojento que é o da vaidade.
A minha aversão vem de antes do 25 de Abril. Quando no final da década de sessenta, princípio da de setenta, a ignóbil censura me cortava, em algumas peças do jornal Miradouro, coisas tão simples como afirmar que faltava luz eléctrica em muitos lugares de Nespereira, que faltava um fontanário neste ou naquele outro lugar, que para se chegar ou sair de um outro não havia outra alternativa que não fosse um caminho de cabras – veja, meu amigo que estávamos a falar de coisas tão simples e elementares como fontanários, para que as pessoas pudessem usufruir desse bem essencial como é a água -; quando, pelas mesmas questões e por outros escritos, sempre em defesa dos interesses do povo da minha freguesia, me tentam eliminar dos cadernos eleitorais; quando um inspector escolar, do Ministério da Educação Nacional – era assim que se chamava – me ameaça com o “olho da rua” se continuasse a escrever da forma que o fazia; quando me ameaçam chamar a GNR para me obrigar a sair de uma reunião camarária pública, que conceito é que eu poderia ter dos políticos?!
Chegou a Revolução dos Cravos e pensei, - ingenuamente, vi mais tarde, - que tocara a finados para a política suja e os políticos sabujos. Engano meu. Saudei o 25 de Abril, continuo a saudar, porque o saldo é extremamente positivo. Só que tudo se conjugou para que a minha aversão aos políticos não esmorecesse, antes pelo contrário. Logo uma corja enorme de indivíduos, alguns que conhecia como as minhas mãos, dos maiores defensores do regime salazarista – passados estes anos todos, alguns, mais ou menos sub-repticiamente voltaram a sê-lo – encostaram-se ao MDP ou mesmo PCP e procuraram sanear, utilizando a calúnia, os meios mais vergonhosos que se possam imaginar, todos quantos entendessem que lhes poderiam fazer frente nas suas ambições. Se mais não conseguiram, pelo menos aborreceram, inquietaram, perderam amigos. O mais vil “partido”, com inúmeros militantes, infelizmente, que surgiu com o 25 de Abril foi o dos “oportunistas”. Continua hoje. E esta democracia tímida, apodrecida, sem sequer ter amadurecido, não conseguiu expurgar tal praga, antes a tem deixado medrar. Tem deixado medrar e, em muitos casos, tem proporcionado a vitória da mediocridade, dos parasitas, dos incompetentes, dos interesseiros, em prejuízo dos competentes, sérios, trabalhadores, defensores do bem público, antes do privado. É um aspecto negativo que a Revolução não conseguiu sanar. Creio que só com outra revolução, não com as motivações da dos cravos, evidentemente, porque não estamos em ditadura, mas que actue sobretudo ao nível da educação nas suas várias vertentes, é que os portugueses conseguirão “distinguir o trigo do joio”, dando o pódio aos melhores e colocando os medíocres no lugar que lhes compete.
Quando esse apetite saneador e a “revolucionarite aguda”, essa autêntica sanha assassina de carácter de amigos e familiares, como se fossem inimigos desde sempre, acalmaram, muitos desses democratas “feitos à pressa”, desses auto-proclamados defensores das suas “queridas” terras e “queridas” gentes, foram-se colando a diversos partidos, nomeadamente o CDS, o PPD, sobretudo este, e também PS. Alguns, sem quaisquer outras convicções que não sejam aquelas que defendam ou aumentem o seu património e a sua vaidade, vão migrando entre os diversos partidos, consoante as conveniências de momento. Devo confessar que muitos destes, nascidos, criados e educados em pleno regime ditatorial, embora me choquem, sejam desprezíveis, não chocam tanto como aqueles que já foram criados, educados na pós-revolução e têm comportamento similar. Enfim, troca-se de política, de mulher ou marido, só se não troca de clube de futebol. Melhor, não trocava, porque os interesses que hoje se movem em volta do desporto-rei levam a que o “clube do coração” de alguns também mude de cor.
Com a balança virtual que pesa o valor dos que desempenham funções políticas a pender mais para o lado dos oportunistas e interesseiros, do que daqueles que são gente séria, correcta, solidária, que também a há, como é que eu não hei-de ter aversão aos políticos?
Seja como for, apesar de a minha experiência de vida me ter mostrado que mesmo na democracia ainda há campanhas e actos eleitorais com muitos truques salazaristas, nomeadamente junto das urnas, o que pode significar que os resultados nem sempre sejam o espelho da realidade, é bem melhor do que nos velhos tempos. Democraticamente, cabe-nos aceitar os políticos que temos, no pressuposto que eles são o produto da vontade maioritária dos eleitores, desejar-lhes a melhor sorte, mas sem que daí resulte que tenhamos de bloquear a nossa voz e a nossa pena, fechemos os nossos olhos e os nossos ouvidos. Cá por mim, enquanto me não cansar, se o não fiz antes de Abril, também não vai ser agora que me demitirei de falar, de escrever, com a consciência de que assim estarei a cumprir o meu dever de cidadania, a servir os meus compatriotas melhor do que muitos, exercendo funções políticas.