domingo, 15 de agosto de 2010

Algumas ideias soltas...ou talvez não

- Há muitos e muitos anos, desempenhando as funções de Comandante de um Corpo de Bombeiros, afirmava publicamente, nomeadamente para órgãos de comunicação social e à altamente deficitária brigada de fogo posto da PJ do Porto, que a maioria dos incêndios florestais tinha origem criminosa. Alicerçava a minha convicção, tendo em conta os locais e as horas a que os incêndios deflagravam. O politicamente correcto era atribuir tais ignições a outros factores. O poder e mesmo as hierarquias dos bombeiros sempre procuraram contrariar a tese do fogo posto, apesar de todas as evidências.
Enquanto dirigente da Liga dos Bombeiros Portugueses e Inspector, mantive o mesmo discurso do fogo criminoso. Poucos queriam aceitar isso, talvez porque não pretendessem que os portugueses ficassem com o rótulo de incendiários. Eu também não o pretendia, mas enterrar a cabeça na areia, fingir que Portugal é um país só de “bons rapazes” é contribuir para que os criminosos continuem à solta a transformar este país em cinzas.
Bom, onde eu quero chegar é ao seguinte: felizmente, embora “tarde e a más horas”, toda a gente já aceita, a começar pelo Ministro da Administração Interna, que a maioria dos incêndios florestais – até já atiram para o ar com 90% - é de origem criminosa.
- Tal como vem sendo hábito de há muitos anos, quando os incêndios florestais preenchem a agenda mediática, não faltam vozes do poder a defender que agora, sim, é que se vai apostar na verdadeira prevenção. Já conhecemos a música de cor. As promessas repetem-se, sejam quais forem os detentores do poder, e tudo se mantém. Ao contrário da prevenção, com limpeza das matas – anda aí tanta gente a comer os nossos impostos e sem fazer nada – construção de aceiros, pontos de água, etc., aposta-se em mais e mais meios aéreos, isto é no combate. Se as promessas se tivessem vindo a cumprir, o normal seria cada vez ser menos necessários tantos aviões e helicópteros.
Para quem estiver minimamente por dentro da problemática dos incêndios florestais e andar atento ao que se passa, ao que se diz e ao que se escreve, tem de chegar a esta conclusão: se em alguns anos a área ardida é menor do que em outros, é sobretudo devido às condições climatéricas ou porque os incendiários andam mais calmos ou menos interessados que arda. Se os resultados se devessem a qualquer estratégia de prevenção e combate, o normal seria que se melhorasse de ano para ano. O ano passado não foi mau, mas veja-se a tragédia que já vai este ano, com muito Verão pela frente, ainda.
E não se esqueça de reflectir no facto de há vinte, vinte e cinco anos termos em combate, meia ou uma dúzia de helicópteros ligeiros, com horas contadas. Os bombeiros fizeram -e continuam a fazer, no fundo, apesar de só terem louvores de circunstância, o resto são punhaladas e desprezo – autênticos milagres. Para se fazerem comparações é necessário jogar com todos os dados.
Há ainda outro problema: é que apesar de toda a abnegação dos bombeiros, que sacrificam a própria vida, falta-lhes, em muitos casos, material de combate em número e em boas condições de operacionalidade. Os últimos governantes, em vez de entregarem as viaturas de combate aos incêndios a quem deviam, isto é, aos bombeiros, entregam-nas à GNR, que pelos vistos, não zela, como devia, pela segurança dos cidadãos, prevenindo e combatendo o crime, mas está a transformar-se na força, por excelência, de combate a incêndios. Isto é uma aberração inconcebível.
- Enquanto não alterarem essa “criminosa” ideia de ter de se solicitar a presença de um técnico, a léguas de distância, ou pedir autorização para usar um contra-fogo, vão continuar a arder grandes áreas de floresta, por essa única razão. A experiência, feita de muitos combates em terrenos de declives acentuados, inóspitos, diz-me e diz a muitos bombeiros que um contra-fogo, imensas vezes, ou é feito naquele momento ou já não resulta. Conceber uma legislação dessas é de quem não tem “miolos”. Só muita incompetência pode permitir tal monstruosidade. Já o afirmei por diversas vezes: se estivesse a comandar as operações num incêndio, se entendesse que em determinado momento a melhor solução, talvez a única, era um contra-fogo, executava-o imediatamente. Depois punissem-me.
- O meu amigo Jaime Soares, Comandante de Bombeiros de Vila Nova de Poiares, Presidente da Câmara do mesmo concelho, Vice-presidente da Associação Nacional de Municípios, Presidente da Mesa de Congressos da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando se trata de matéria de bombeiros vê-se aflito para saber exactamente de que lado há-de estar. Tanta experiência, aliada à inteligência, dão-lhe, todavia, a capacidade de saber, como ninguém, quando é preciso, “dar uma no cravo e outra na ferradura” e muitos nem se apercebem.
Ele sabe que muitas Câmaras não dão o apoio necessário, sobretudo em situações de incêndios florestais, aos bombeiros. Isso é uma verdade que facilmente se comprova. Jaime Soares sabe, eu sei, você sabe que muitos bombeiros teriam já morrido à míngua, se estivessem à espera do apoio logístico das autarquias. O que lhes vale, muitas vezes, é o apoio das suas próprias estruturas, dos populares, de estabelecimentos de restauração, de pequenas e grandes superfícies, que lhes fornecem água, leite, pão e outros produtos alimentares.
Poderia aqui lembrar também as inúmeras Câmaras que não estão disponíveis para criar as Equipas de Intervenção Permanente, o que revela a pouca importância que dão ao socorro e o pouco respeito pelos Corpos de Bombeiros
Quanto aos Comandantes Municipais estou com ele. As leis são para cumprir e nesse aspecto há muitas Câmaras em infracção, mas não são necessários. Para conflituar, para arranjar mais confusões na coordenação, para ser mais um problema do que uma solução, já bastam os GIPS da GNR, em má hora criados, retirando homens aonde eles deveriam estar e dando-lhes meios que deveriam estar nos Corpos de Bombeiros.
- Não consegui deixar de esboçar um sorriso, embora o assunto seja demasiado sério para poder dar vontade de rir, ao ouvir o Ministro da Agricultura sugerir que os terrenos abandonados deveriam passar para a posse do Estado. Para quê? Para continuarem abandonados?! Alguém reconhece ao Estado um bom exemplo nessa matéria?
- Ontem, 14 de Agosto, vi, no “sítio” da ANPC, na descrição de um incêndio em Cabril – Lindoso – PNPG, com 53 bombeiros, entre outras forças, ter como comandante das operações de socorro o Cabo Torres do GIPS da GNR. Ao que isto chegou!
- Os responsáveis pelas mortes dos nossos heróis bombeiros, que hão-de certamente estar num sítio mais justo, não são apenas aqueles que incendeiam as matas, mas também muitos dos que se sentam nas diversas cadeiras dos diversos poderes.

sábado, 7 de agosto de 2010

O orgulho

Há por aí muitos indígenas que, frequentemente, afirmam o orgulho que sentem pelos inúmeros aspectos positivos que descobrem nesta nossa freguesia de Nespereira, do território cinfanense e pelas incontáveis virtudes que também ousam descortinar em alguns conterrâneos, virtudes inexistentes ou altamente inflacionadas. Só inconfessáveis desígnios, que os mais atentos facilmente percebem, justificam semelhante verborreia. São pessoas que não encontrando em si muito de que se orgulhar, encontram nisso a forma de revelar, ilegitimamente, embora, o seu orgulho. E cai sempre bem dizer o melhor possível da nossa terra e das suas gentes e dá alguns votos a quem já não conseguir sobreviver com vaidosa visibilidade, “à tona”, digamos assim, sem eles.
O que os meus sentidos me mostram, salvo raras excepções, são, quando muito, virtualidades, mais do que realidades, que parece nunca, ou só muito tarde, se concretizarem.
Tenho aqui um terreno fértil para espraiar as minhas ideias, mas não quero fugir muito daquilo que me motivou a fazer esta reflexão: exactamente a expressão orgulho, que já no início do texto colocara em itálico.
Quando as pessoas exaltam, por exemplo, o orgulho bairrista, estão a deturpar o significado da expressão que é um sentimento que tem a ver exclusivamente com o próprio indivíduo. O orgulho é “o elevado conceito que alguém tem de si próprio”. Quando alguém se agarra ao orgulho bairrista ou mesmo nacional, das duas uma: ou não encontra em si próprio méritos que o faça sentir orgulho, como já referi atrás, ou, por vaidade aliada ao orgulho, considera que ele próprio é dotado de méritos que contribuem para que a terra ou a nação sejam reconhecidos. É a vaidade a sobressair do orgulho. Sentir orgulho pelos outros pode ser uma atitude muito bem vista, até altruísta, mas atenta contra o verdadeiro significado da palavra. Não tenho que sentir orgulho pelos méritos, pelas qualidades, pelos sucessos dos outros, devo, isso sim, comungar da sua felicidade.
Infelizmente, o que se vê muito, é a exaltação externa, pública, do orgulho, pelos feitos de outros, quando isso transporta benefício pessoal ou político, mas, mesmo assim, internamente, a inveja rói sem cessar.
Sem menosprezar o que de bom existe, nem aqueles que para isso tenham contribuído, antes pelo contrário, eu interrogo-me se, a chegar ao final do segundo lustro do século XXI, existe motivo para eu mostrar satisfação – se preferir leia para me sentir orgulhoso – se a nossa terra (a colocação dos diversos itens é aleatória, não reflecte qualquer índice de valor ou prioridade):
- não tem uma estrada nacional que nos leve e traga com segurança e com alguma rapidez;
- não tem saneamento básico, não obstante algumas infra-estruturas de razoáveis dimensões;
- não tem abastecimento de água domiciliária;
- não tem um Complexo Escolar e Desportivo;
- não tem uma Unidade de Saúde verdadeiramente digna desse nome;
- não tem um Posto de Correios;
- não tem um Posto de Autoridade Policial;
- não tem qualquer instalação hoteleira, uma simples residencial com meia dúzia de quartos, com quartos de banho privativos, como é óbvio que hoje aconteça;
- não tem uma verdadeira estrada que sirva Lourosa e Paradela;
- tem o Largo da Feira, requalificado vergonhosamente, complicando o acesso à parte norte e nascente, nomeadamente Bacelo e Granja, deixando lá um mamarracho inútil que é o coreto e colocando lá outro mamarracho que são as instalações sanitárias, ainda por cima sem funcionarem;
- tem o Rancho Folclórico a construir a sua sede e um museu, na Granja, sendo que não vai lá um autocarro e, na maior parte do percurso, nem dois carros ligeiros se cruzam;
- tem algumas associações que não têm um espaço, ainda que mínimo que seja, propriedade sua;
- tem os campos por cultivar e os montes e caminhos por limpar;
- tem imensa gente sem trabalhar, ao que se diz, a viver à custa dos impostos dos que trabalham ou já trabalharam;
- tem outra gente que recebe subsídio de desemprego ou Rendimento Social de Inserção e trabalham, não pagando impostos, nem ela nem aqueles para quem trabalha, obviamente;
- ninguém fiscaliza, porque é desagradável, incómodo;
- no lugar da Vista Alegre, desde há algumas dezenas de anos que as diversas Juntas de Freguesia têm dado terrenos (com que legitimidade?) para construção ( em reserva ecológica), em muitos casos para segunda habitação, que alguns vendem (ou casa ou terreno), sem que nenhum autarca tenha tido a ousadia de acabar com esse negócio. Como se isso fosse pouco, nem sequer nunca se preocuparam em fazer pelo menos um projecto de loteamento, feitas as diligências que tivessem de ser feitas, de modo a que as casas ficassem devidamente alinhadas e com acessos largos e fáceis. É ver a vergonha que lá está, num lugar em que a maioria das casas (algumas parecem mansões, pouco compatíveis com o facto de estarem construídas em terreno cedido gratuitamente) tem menos de quarenta anos, altura em que eu já alertava os autarcas de então.
Se alguns afirmassem publicamente as afirmações que autarcas lhes fizeram!... A quanto obrigam os votos!!! Pelo menos, à falta de independência, de coragem e, em alguns casos, até à falta de vergonha!
Já agora, festas e mais festas é que não faltam. E peditórios também. Com tanta festa, chego a não perceber onde está a crise.
Cá por mim, que quis ficar nesta terra por amor, que mantenho, e fazer algo por ela, ainda que em prejuízo de uma outra carreira para a qual sentia maior vocação, não sinto qualquer satisfação com isto. Se você acha que é nisto que deve ter orgulho, faça bom proveito.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Que Deus nos proteja!

Alguns dos temas que mais têm ocupado os meus momentos de reflexão, são a segurança – um grave problema cultural português – a hipocrisia, a ingratidão, a mediocridade.
Quanto à segurança, aquilo a que todos os dias assistimos, com perdas de vidas absolutamente injustificadas, perfeitamente evitáveis, demonstram plenamente que há um trabalho árduo a desenvolver nessa área, que terá de passar, forçosamente, pelas famílias, pelas escolas, pelas autarquias, pelas forças de protecção e socorro, pelas forças de segurança, enfim, por todos e cada um de nós. Cá por mim, tenho feito o que posso, nomeadamente através da escrita, mas sei que poderei fazer mais, desde que o desejem, proporcionando-me oportunidades para tal. Bom…”para bom entendedor…”. Fica-me a expectativa se haverá “bons entendedores”.
Através da proliferação e do fácil acesso aos mais variados órgãos de comunicação, de que não excluo a internet, chega-se à conclusão de que este “sítio” está cada vez mais hipócrita, mais ingrato, mais atrasado. Há por aí gente a emitir opiniões que se sustentam sobretudo no dizer o que a pode favorecer pessoalmente, bajulando, louvando o que não merece minimamente ser louvado, antes pelo contrário, fingindo ignorar acções de maior relevo. É a hipocrisia sem escrúpulos, é a sabujice nojenta, que provoca repulsa.
Fazem-se afirmações que nada têm a ver com a realidade. Temos a certeza, inclusive, que não dizem o que pensam, mas o que lhes convém, para agradar ou mesmo para dar satisfação ao “ amor com amor se paga”. É a bajulação recíproca. É preciso muito cuidado, pois, segundo George Chapman “os aduladores são tão parecidos com os amigos como os lobos com os cães”.
É óbvio que eu respeito inteiramente a diversidade de opiniões. Nem me imagino a ser de outra forma, mas uma coisa é a diferença de opiniões que cada um emite, outra é alguém afirmar coisas indefensáveis e, pior do que isso, em que ele próprio não acredita, mas que só a conveniência o leva a isso. É a hipocrisia com todo o seu esplendor. A hipocrisia é uma enfermidade extremamente vulgar que normalmente traz a si associada outra repugnante maleita que é a ingratidão.
Todos nós, uns mais do que outros, temos muito de ignorantes. Eu não me sinto nada mal por constatar a minha ignorância relativamente a uma imensidão de temas, mas procuro, sobretudo quando escrevo, porque é uma marca que ali fica, não o fazer sobre coisas de que não estou minimamente à-vontade. O que não significa que o não possa já ter feito, involuntariamente. Agora, há assuntos que, pura e simplesmente, não dependem de qualquer opinião. São o que são. Estou a lembrar-me, por exemplo, do que, pelos vistos se falou, e também escreveu, relativamente à possibilidade de uma federação das associações de Nespereira. Pura e simplesmente é um erro crasso, porque só podem existir federações de associações, clubes, sindicatos, etc., idênticos, que tenham os mesmos objectivos, como federação de bandas de música, de grupos folclóricos, de associações de bombeiros e por aí fora.
Isto não significa que não se possa discutir qualquer outra espécie de ligação entre as várias associações indígenas, só que federação não. Discutir sobre algo irrealizável é perda de tempo, ou, se preferir, tolice.
Já por diversas vezes referi, que, em determinados aspectos, muitos, aliás, se assiste à vitória da mediocridade. Na política, por exemplo, uma grande parte das pessoas que aí ocupam posições, de maior ou menor relevo, como são medíocres, oportunistas, ambiciosas, receiam as pessoas inteligentes, que pensam e dizem o que pensam, não olharam a meios para conquistar tais posições, como não olham para as defender, ainda que tenham que pisar quem quer que seja.
Porque os inteligentes, os pensadores que não vergam a espinha a troco de qualquer privilégio, que adoptam a verdade, a frontalidade como forma de relacionamento com os outros, sejam amigos ou não, não se permitem a essas “patifarias”, quem vence é a mediocridade. Talvez por isso, Ruy Barbosa escreveu: “Há tantos burros a mandar em homens inteligentes que, às vezes, penso que a burrice é um ciência”.

Os medíocres ficam com tal receio com a simples aparição de alguém com capacidade superior, de alguém com verticalidade que os possa ameaçar, que tudo fazem para não o deixar entrar no seu mundo e, se possível, mesmo abatê-lo. No fundo é o reconhecimento das suas limitações, de que o mais capaz faria facilmente aquilo que ele não consegue ou só o consegue com imensas dificuldades. Ao reconhecimento que as pessoas normais demonstram pelos mais capazes, opõe-se o silêncio ou a repulsa por parte dos medíocres.
Churchil disse: “A inteligência conquista inimigos, o talento assusta”.
Que Deus nos proteja!

António Salazar

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pinceladas

No rescaldo da maratona mediática que envolveu a visita do Papa Bento XVI ao nosso país, entre outras conclusões a que cheguei, algumas pouco abonatórias quanto à qualidade da fé de muitos dos nossos compatriotas e da sua capacidade de interpretação das mensagens, uma delas foi a de que milagreiros, pelos vistos, foram os portugueses que conseguiram o feito de transformar um cardeal frio, carrancudo, pouco dado a enfrentar e a sorrir às multidões, num Papa afável, quase à semelhança de João Paulo II. Isto segundo nos levava a crer a quase generalidade, quanto a mim, demagógica, Comunicação Social.
Deve-se receber bem os que nos visitam, mas para uma Igreja que exalta a pobreza dos seus servidores e num tempo de pobreza real, numa enorme franja da população mundial, será necessária Tanta pompa?!
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Belmiro de Azevedo, o patrão da SONAE, afirmou que “Quando o povo tem fome tem o direito de roubar”. Eu não me atreveria a falar em direito, mas creio que é compreensível que quem se veja a definhar a si e aos seus familiares, sobretudo crianças, por motivo de fome, roube para comer. Compreensível, admissível, não é o mesmo que direito. De qualquer forma, já que Belmiro lhes concede esse direito, eu sugiro aos esfomeados que, a roubar para comer, o façam nas lojas Modelo e hipermercados Continente. Lá encontrarão, passe a publicidade, comida para todos os paladares.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Que bom!

Não sei se é apenas mais um boato, ou uma verdadeira intenção. Tomo conhecimento que mulheres nespereirenses tencionam reunir-se em jantar todos os fins-de-semana. Que bom! Pensava eu que andava por aí tudo deprimido por causa da mais do que propalada crise. Pelos vistos, nem as mulheres nespereirenses andam deprimidas, nem sentem qualquer efeito da crise, ou, se preferir, a crise terá passado ao largo de Nespereira. Bom, devo confessar que pelo ambiente que dia a dia, vislumbra por cá, quem de facto andar devidamente atento, tem a sensação de que não vive qualquer crise. Ainda bem. Para além de tudo, se as mulheres não andarem deprimidas, os homens também disso beneficiarão. E como pelos vistos a entrada a tais jantares está interdita a homens, os maridos, companheiros ou namorados ficam resguardados de quaisquer eventuais ciúmes.
Feliz por ver as mulheres da minha terra felizes, há, todavia, dois aspectos que não posso deixar de referir. O primeiro é que apesar de tão frequentes eventos denunciarem ausência de crise, ao que se diz, são inúmeras as pessoas subsídio dependentes. Como “não condiz a letra com a careta”, não será despiciendo um estudo do fenómeno por parte de autoridades responsáveis. O segundo é que me parece que se está a passar de um extremo ao outro. Se alguém pensa que é dessa forma que se contribui para a emancipação da mulher, está profundamente errado. Homens e mulheres, juntos, fazendo as mesmas coisas, participando nos mesmos eventos é que retratam a verdadeira igualdade entre sexos diferentes.
De qualquer forma, viva a alegria, viva a festa, vivam todas as mulheres…e os homens.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bandeiras

Quando iniciei o cumprimento do serviço militar, a meio da década de sessen-ta, portanto nos primeiros anos da inútil, inglória e cruel guerra colonial, já eu era professor efectivo, como na altura se dizia, e sabia que o boato era uma arma poderosíssima, letal, muitas vezes, utilizada tanto para destruir o carácter de muitos cidadãos, como para, através dele, pessoas ou grupos, colherem benefícios. Não obstante os muros que se erigiam em nosso redor, mantendo-nos no maior obscurantismo possível, tinha, de facto, alguma noção da impor-tância do boato. Foi, no entanto, enquanto militar que fiquei a conhecer o seu real valor e como ele era utilizado pelas chefias militares, com resultados posi-tivos. A sua eficácia, sobretudo no limiar da guerra, em que as tropas indígenas eram possuídas de muita ingenuidade, chegava a ser maior do que as Mauser, as G3, as minas, os tanques, etc. O fenómeno do boato era de tal forma importante que era seriamente estudado.
Militarmente, continua hoje a ser amplamente utilizado, não só durante o período em que ocorrem as intervenções, mas antes mesmo, para as justificar. A intervenção no Iraque, por exemplo, a que infelizmente o nosso país está ligado, foi justificada através daquilo que terá sido um boato hábil e conscien-temente forjado. É assim no campo militar, na política, infelizmente, também na vida social e profissional. Quando se quer derrotar alguém ou colher determi-nados benefícios, nada melhor do que criar engenhosamente e fazer espalhar – há sempre gente sequiosa por o fazer – um boato. Os políticos que o digam.
Tirando esses boatos que pretendem derrotar, abater ou colher benefícios, surgem outros, de quando em vez, que nem é fácil adivinhar-se-lhes a intenção nem a origem. Alguns deles só servem para desestabilizar um determinado grupo ou população, mas são de tal forma destituídos de credibilidade que não merecem que quem quer que seja lhes dê qualquer publicidade. Em nome da tranquilidade pública é de bom senso que os que os ouvem, ao invés de os propagar, os encerrem dentro de si, e/ou, antes de tudo, procurem confirmar se existe alguma réstia de veracidade, porque também não devemos esquecer o adágio que diz que “não há fumo sem fogo”, nem que seja o de uma ténue e extenuada lamparina.
Curioso. Muito curioso. O PSD, anda, de uns tempos a esta parte, a desfral-dar a bandeira da liberdade de expressão, de modo a que até já protagonizou a criação no Parlamento, de uma comissão de ética e, posteriormente, de uma comissão de inquérito. Como praticamente todos os políticos, também os do PSD têm fraca memória. Não vale a pena recordar aqui alguns factos, mas valerá certamente lembrar o que Granadeiro disse relativamente a Morais Sar-mento, que este pretendia que fossem demitidos três directores de órgãos de comunicação social. Quem tem telhados de vidro deveria ser mais prudente. Bom, mas como o PSD não estava ciente se os portugueses teriam a certeza de que ele não é melhor ou diferente daqueles a quem acusa, resolveu, no final do último congresso, garantir-lhes isso mesmo com a aprovação da já denominada lei da rolha. Triste figura. Muitos acharão que não estamos bem, mas cada vez mais também terão a certeza de que não vislumbram qualquer alternativa credível.
Os três principais candidatos a líder estiveram lá, mas foi interessante ouvi-los, no fim, dizer que não concordavam com tal lei e que, sendo eleitos, a pro-curariam alterar em próximo congresso. Veremos. Estando lá, no “poleiro”, tal despropositada lei dar-lhes-á um jeitão, como daria a qualquer outro líder.
De Alberto João Jardim tudo se pode esperar. Pedro Passos Coelho não terá sido muito feliz com aquela do perdoa-me que eu já te perdoei, pretendendo fazer passar uma imagem de humildade, que, a existir, mais importante do que isso tratava-se de “piscar o olho” a votos madeirenses. Mesmo assim, nem ele, nem os portugueses, que estão a dar um exemplo extraordinário de solida-riedade para com a Madeira e os seus irmãos madeirenses, esquecendo as ofensas do seu “chefe”, mereciam aquela grosseria de, como resposta ao can-didato a líder, se ausentar do seu lugar e ir sentar ao lado de outro candidato, o Paulo Rangel. É esta gente que fala de ética?! São estas as suas bandeiras?!

sábado, 6 de março de 2010

Ensina-o a pescar

Liberto de compromissos profissionais e de outros a que durante muitos anos me devotei, hoje, o reflectir consome-me muito mais tempo do que o agir. Há um período da vida em que a acção se sobrepõe claramente à reflexão. Talvez, por isso mesmo, por não termos o tempo suficiente para pensar, nem sempre tomaremos as medidas adequadas, quando temos que agir. Se algumas vezes é verdade que poderíamos ser um pouco mais prudentes, poderíamos gastar alguns momentos para equacionar, outras vezes, não há lugar a qualquer tipo de espera, tem de se tomar uma resolução de imediato, muitas vezes indo ao arrepio de leis ou regulamentos. Vivi algumas situações do género e nunca hesitei em reagir de imediato, independentemente de estar ou não a cometer alguma infracção. Situações destas acontecem com alguma frequência quando se trata de operações de socorro. Nunca tive de me arrepender de nada e sempre transmiti aos meus subordinados a ideia de que em situações de emergência, não se pode esperar que o superior hierárquico seja contactado para se tomar uma decisão. Primeiro decide-se em favor da vida, depois dá-se conhecimento ao superior. Há uma coisa que, sobretudo quando se trata de vidas humanas ou património em risco, é mais importante do que qualquer lei ou regulamento. É o bom senso.
Feito este intróito, a minha reflexão de agora está virada para a expressão ajuda. Tínhamos aqui “pano para mangas”, se quiséssemos debater o tema até à exaustão. Bom, mas aqui não se trata de um debate, mas tão-só de uma reflexão para um blogue. Em questão está o conceito de ajuda, quem ajuda, quem é ajudado.
A ajuda de que muitos necessitam não é exactamente igual para todos. Às vezes as necessidades são opostas. Há quem necessite de uma palavra de carinho, de estímulo, de solidariedade, como há quem precise mais de uma palavra de recriminação, de apontar um caminho. Há quem necessite de ouvir dizer um sim, como há quem necessite de ouvir um não. Há quem apenas necessite de silêncio.
Quando se fala em ajuda, normalmente, o nosso pensamento conduz-nos logo para ajuda material, que não se traduz apenas no apoio pecuniário – pode sê-lo de muitas outras formas, como alimentos, roupas, equipamentos, etc. Sobretudo aqui é que eu entendo que se cometem muitos erros, desde logo porque o vil metal é extremamente sedutor. Nem sempre a oferta de dinheiro é a forma mais correcta de ajudar. Muitas vezes é extremamente perniciosa, porque alimenta a preguiça, a ociosidade, trava a criatividade, o engenho, o esforço. A sociedade, no entanto, aplaude quem dá, ainda que seja mal empregue e a pior forma de ajudar. Por sua vez, quem dá, ufano pelo gesto e pelos aplausos da turba, eleva a sua auto-estima, o que não é mau, e julga-se o mais importante à superfície da terra, o que é péssimo.
Poderia alongar-me bem mais sobre este aspecto da ajuda, mas fico-me por aqui. Vamos a outro aspecto, o da perspectiva de quem é ajudado. Ora bom, porque sabem que há sempre alguém que não tendo outros atributos, a começar pela inteligência e seriedade intelectual para alimentar o seu ego, estarão disponíveis para dar uns trocados ou uns objectos, alguns dedicam-se à madracice, não fazendo “a ponta de um corno” em termos de trabalho rentável. Se vivessem apenas à custa dos beneméritos-fautores-de-malandros, vá que não vá, o pior é que alguns deles ainda se dão ao luxo de comer à mesa dos nossos impostos. Este tipo de ajuda, que não é a que eu defendo, salvo algumas excepções, obviamente, faz felizes e contentes as duas partes: os madraços, que não “vergam a espinha” e os seus “beneméritos” por tantas e tamanhas “virtudes” ostentarem.
Inspirado nos chineses – daí o título – eu entendo que se quisermos ajudar alguém, em vez de lhe darmos o peixe é ensiná-lo a pescar, ainda que tenhamos que lhe dar também a cana, o anzol e mesmo a minhoca.
Alguns não quererão, mas abandonem os esmoleres a caridadezinha e talvez os encontremos um dia por aí à pesca, para seu bem e de todos nós.